terça-feira, 18 de janeiro de 2011

DISCURSO DE FORMATURA DA TURMA DE SERVIÇO SOCIAL DE 1966

A escolha do meu discurso foi anunciada no jornal em 07/12/1966
*Grafia da época

                Anunciada, prematuramente, a escolha do paraninfo único da turma de diplomando da Universidade Federal da Paraíba, verificou-se que o problema permanece em suspenso, aguardando melhor oportunidade para voltar ás cogitações. Decidido ficou foi escolha do intérprete dos diplomados de todas as turmas com a vitória da doutora Luiza Herundina da Silva na prova de seleção recém-promovida sob a supervisão de três notáveis catedráticos. Os vencidos foram dois elementos do sexo masculino que nessa prova foram suplantados pela inteligência e agilidade mental, característica das mulheres bem dotadas mentalmente. Não se queira ver nessa vitoria da jovem bacharela uma prova a mais da superioridade feminina, porque a competição foi posta nesse pé, mas é evidente, que as mulheres abrem caminho a golpe de inteligência ajudadas por dose de audácia e, aos poucos, vão, suavemente, passando os homens para trás. Os competidores da Dra. Luiza foram traquejados nas pugnas oratórias, mais faltou-lhes o sentido da profundidade dos temas abordados e porisso perderam a vez de interpretar os sentimentos e o pensamento de uma turma de diplomandos, onde as diferenças ideológicas repontam a cada passo.  

Veja a foto do momento e o conteúdo do discurso na íntegra:




DISCURSO DE FORMATURA DA TURMA DE SERVIÇO SOCIAL DE 1966
Oradora: Luiza Erundina de Sousa
Data: 18 de Dezembro de 1966

                Agradecemos, do mais íntimo do coração, a honra com que nos distinguistes, escolhendo-nos para intérprete dos vossos sentimentos nesta feliz ocasião.
                Se é difícil comunicar os próprios sentimentos, mais difícil ainda é traduzir sentimentos alheios. Por isso, deixamos que fale, neste momento, a voz do coração.
                Como diz a máxima evangélica, “a boca fala da abundância do coração”. Assim sendo, não nos deve preocupar tanto a palavra a ser dita porque, necessariamente, será a expressão daquilo que está transbordando em nós.
                Um misto de alegria e tristeza nos invade a alma neste instante. Isto poderá parecer um paradoxo, pois como é possível estar alegre e triste ao mesmo tempo? Para nós que o experimentamos é fácil explicar.
                Este momento é, simultaneamente, de festa e de saudade. Daí por que alegria e tristeza. Alegria por vermos coroados de pleno êxito os sacrifícios que os nossos queridos pais se impuseram para que adquiríssemos uma profissão, como a melhor forma de garantirem o nosso futuro. Tristeza imensa pela ausência dos que já se foram, sem ao menos verem realizado talvez o maior sonho de toda sua vida, nossa formatura.
                Nós acompanhamos de perto o seu sacrifício. Testemunhamos suas renúncias. Alguns deles chegaram ao extremo de restringir o próprio orçamento familiar, já bastante parco, para que pudéssemos nos deslocar de longínquos lugarejos do interior até esta Capital ou outros centros do Estado, a fim de freqüentarmos um colégio.
                Se cada um de nós pudesse narrar um pouco a sua história, pelo menos o capítulo que hoje se encerra, veríamos quanto heroísmo, quanta cruz esconde este título que agora nos é conferido. Por isso, nosso coração, neste momento,fala também de gratidão que se estende não só aos nossos caríssimos pais, mas também aqueles que foram a continuação deles, enquanto partícipes do trabalho de formação da nossa personalidade, os prezados mestres.
                Quem não se lembra da figura querida da sua primeira professora? Quem consegue esquecer a marcante personalidade do professor na sua cátedra universitária? Esses dois personagens que ocupam os pólos da nossa vida estudantil envolvem toda uma série de ilustres e devotados mestres a quem muito devemos pelo que somos hoje.
                Consideramos tudo isso um imenso dom que está a exigir uma retribuição. Nós a daremos, fazendo render, ao máximo, os conhecimentos adquiridos para colocá-los a serviço de todos os homens, nossos irmãos.
               
Colegas concluintes:
               
                Abraçamos uma profissão que é antes de tudo, um “serviço” e que corresponde a uma missão especial junto à comunidade humana. Para cumpri-la bem, é necessário que nos impregnemos do verdadeiro humanismo cristão renovado pelo Concílio Vaticano II que recolocou o homem no seu devido lugar, restituindo-lhe a consciência de sua dignidade de filho de Deus e de sua responsabilidade diante dos outros homens e da história.
                Talvez se levante dentro de cada um de nós, neste momento, uma inquietante interrogação, muito natural, aliás, para quem se vê diante de novas perspectivas de vida.
               
- “O que fazer agora?”
               
                O juramento que fizermos contém a resposta exata a esta pergunta, indicando-nos os rumos certos a seguir:

                - “Ser fiel aos preceitos da Justiça e da Caridade no exercício da profissão de Assistente Social;
                - Lutar por condições dignas que permitam o exercício dos direitos fundamentais do humem;
                - Envidar esforços pela realização de um autêntico Serviço Social.”

                Antes de tudo, fidelidade aos preceitos da Justiça e da Caridade, o que corresponde a reconhecer praticamente e fazer respeitar a igualdade essencial entre todos os homens, evitando discriminações na aplicação dos direitos fundamentais da pessoa.
               
                Cumpre-nos, igualmente, lutar por condições de vida mais humanas e mais justas para todos os homens, o que supõe a reformulação das estruturas.
                Nós que encarnamos o Serviço Social e que nos dizemos humanistas e cristãos, devemos ser agentes dessa renovação das estruturas, sob pena de trairmos o nosso juramento.
                Seria oportuno que todos nós, Assistentes Sociais, os de ontem e os de hoje, fizéssemos uma revisão cuidadosa de nossas posições para aquilatarmos até que ponto temos sidos autênticos e coerentes com os nossos princípios.
                Precisamos ser verdadeiros para que acreditem em nós.
                Muitas críticas nos tem sido feitas porque nem sempre procuramos atingir os problemas humanos e sociais em profundidade. Limitamo-nos, frequentemente, a uma atuação empírica e superficial, incapaz, portanto, de dar resposta aos problemas em si tão complexos.
                É perda injustificável de tempo uma ação paliativa sobre os efeitos dos problemas, sem que se vá às suas causas profundas, visando a removê-las.
                Por outro lado, precisamos conhecer profundamente a realidade que nos cerca, a fim de tomarmos posição face a ela e nossa posição deve ser bem definida.
                Na hora presente, não há mais lugar para os neutros. Eles constituem um obstáculo que se tem de remover por estar atrapalhando o processo histórico.
                É necessário ainda que estejamos vigilantes e atentos para não nos comprometermos com aquilo que é injusto e, portanto, contrário aos nossos elevados ideais cristãos e profissionais.
                A nós, Assistentes Sociais, que juramos fidelidade aos preceitos da Justiça e da Caridade, só um compromisso nos é lícito: o compromisso com a Verdade, com a Justiça, com o Amor.
                Muitos nos têm causado, a nós Assistentes Sociais, de espírito burguês. Precisamos nos auto-avaliar séria e honestamente para ver até que ponto isto corresponde à verdade, porque este qualificativo não nos fica muito bem.
                Se alguma pedra tenham, para lançar contra nós que não seja jamais por conivência com os erros da burguesia; por não termos sido fiéis ao supremo ideal de servir e de amar a todos os homens, nossos irmãos, antes de tudo aos mais carentes do nosso serviço e do nosso amor; por não nos identificarmos com suas aspirações mais legítimas; por não fazermos nossas suas angustias e incertezas; por não nos empenharmos decididamente no sentido de garantir a todos os homens o exercício pleno e responsável dos seus direitos e deveres inalienáveis que o próprio Deus lhes conferiu e que injustamente os outros homens lhes negam num atentado grave à ordem estabelecida por Deus.
                Ocorrendo esta grave omissão, é justo, sim, que nos condenem, porque não teremos sido fiéis nem mesmo a nós próprios, já que não correspondemos à nossa vocação.
                Desculpem-nos, queridas colegas, se estivermos diminuindo, com estas palavras assim tão fortes, a justa e merecida alegria deste momento. Mas é que estas idéias são o resultado de um transbordamento impetuoso que, absolutamente, não conseguimos conter, porque de há muito constituem para nós motivo de preocupação, assim como também para vós, pois conhecemos enormes exigências.
                Dirigimo-nos agora ao Exmo. Sr. Governador, para dizer-lhe quanto nos honra aqui, na qualidade de Paraninfo da nossa turma que o escolheu por unanimidade. Assim o fez porque reconhece o seu valor pessoal, enquanto indivíduo e enquanto homem público.
                Acompanhamos com vivo interesse seu esforço tenaz no sentido de imprimir novos rumos aos destinos da Paraíba.
                Vemos que governa com as atenções voltadas para os interesses do povo.
                Tudo isto nos induziu a este gesto espontâneo de consideração para com S. Exia. Que bem o merece por quanto se tem devotado à causa pública, seja em âmbito estadual ou nacional.
                Nós, Assistentes Sociais, temos uma dívida de gratidão para com S. Exia. Por ter colocado à frente da importante Secretaria do Trabalho e Serviços Sociais uma Assistente Social. Isto muito nos honrou pelo que representa de confiança e de deferência para com nossa classe.
                Querendo dar especial destaque, deixamos para o fim nossa palavra de gratidão à Escola de Serviço Social da UFPB, na pessoa da sua digníssima Diretora Madre Maria Franklin, do seu respeitável corpo de onde escolhemos nosso Patrono, o ilustre professor Celso de Paiva Leite, da sua dedicada equipe de Supervisoras e de seus devotados funcionários.
                Graças à grande dedicação daqueles que fazem a Escola de Serviço Social, esta figura entre as poucas Escolas de país que se tornaram pioneiras na reformulação da sistemática do Serviço Social, o que representa um imperativo face ao processo natural de mudança dos quadros sociais.
                Isto muito nos contenta e nos leva a uma atitude de disponibilidade em relação à Escola, no sentido de que também possamos contribuir para a plena realização do importante papel que ela tem a desempenhar no Nordeste.
                Por último, uma palavrinha de despedida e de estímulo às colegas que continuarão o seu curso.
                Nós a deixamos, certas de que continuarão honrando o nome da nossa Escola e elevando sempre mais o conceito do Serviço Social.

                Colegas:

                Confiantes de não vos ter decepcionado no vosso gesto de generosidade, escolhendo-nos para vossa oradora, aqui fica a expressão mais profunda do nosso reconhecimento e sincera amizade.
                Procuremos, durante as últimas semanas que precederam este dia, acostumar-nos à dura realidade de que teríamos de nos separar, porém não o conseguimos. Não é fácil arrancar raízes plantadas há tanto tempo no coração. Mas a vida nos impõe este sacrifício. É que para obtermos os frutos da árvore, é necessário que morra a semente.  

                 

                 

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