Discursos

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pássaro Preto


Artigo escrito para a Revista Felc N°1 - Março de 2007

Nasci em Canaã... Que virou Belém... Que virou Uiraúna. Nomes estes que exerceram enorme fascínio sobre mim quando era criança e, até mesmo, depois que cresci.
Belém lembra Presépio... Manjedoura... Natal.

Canaã leva a imaginação às bodas de Caná onde Jesus, a pedido de sua Mãe, realiza o primeiro milagre, para assombro dos que participavam da festa.

Foi difícil me acostumar quando virou Uiraúna, nome emprestado de um pássaro da região, que desperta curiosidade. Sempre me perguntam: ”de onde vem esse nome estranho?”. Aí eu respondo, com uma pontinha de orgulho: “ é o nome de um pássaro preto que existe por lá”. De repente me assalta uma dúvida: “Será que é verdade? Eu nunca vi um pássaro desses!”

Ficou mais complicado quando virei prefeita de São Paulo. Todo mundo queria saber quem eu era e onde tinha nascido. Aí então, Uiraúna virou notícia e começou a aparecer em tudo que era jornal, rádio e tevê. Fiquei feliz de ver minha pequenina e longínqua Uiraúna se tornar conhecida. Muita gente passou a se interessar de saber que pássaro é esse que se chama Uiraúna.

Saí de lá bem pequena, fugindo da seca com meus pais e irmãos  e com muitas outras famílias que, como a minha, tinham que arribar para não morrer de fome e sede.

Logo que a chuva chegava ao sertão, voltávamos correndo, pois não sabíamos viver fora de lá.
Mais tarde, com um pouco de idade, fui migrando dentro do próprio Estado em busca de oportunidade de estudo para poder ser “gente”.

Graças à generosidade de parentes que me acolheram, consegui ultrapassar os limites do saber que Uiraúna me oferecia e me inserir em níveis mais elevados de conhecimento.

Sonhava com as férias escolares para voltar ao seio da minha família e ao convívio com os jovens da minha geração e, com eles, usufruir a fantástica experiência de compartilhamento da vida simples e fascinante da nossa cidadezinha.

É impossível esquecer as animadas festas da padroeira da cidade, a Sagrada Família: Jesus, Maria e José, todos os anos, no mês de janeiro. Festas que nos uniam e envolviam a todos nas solenes celebrações religiosas ao mesmo tempo que nos dividiam na acirrada disputa entre dois partidos: o “cordão azul” e o “cordão encarnado”. No final, ganhava um ou outro, mas quem saía mesmo ganhando era a paróquia com o resultado financeiro da festa, fruto de leilões e quermesses animadas que faziam a alegria de toda a gente.

Quem não se lembra da figura austera de Pe. Anacleto, santo homem, vigário zeloso que conduzia com amor e dedicação a vida espiritual do seu rebanho.

Éramos felizes e sabíamos. Até que a vida nos levou para muito longe, por caminhos e destinos jamais imaginados, nos distanciando sempre mais das nossas origens. Restaram a saudade e o desejo enorme de reviver tudo aquilo que nos encantou nos anos felizes da nossa infância despreocupada; que suscitou os sonhos dourados da nossa juventude e que, até hoje, alimentam a esperança que nos anima e nos impulsiona a construir um mundo novo, onde todos, sem exceção, tenham garantido o direito à paz e à felicidade; sem exceção, tenham garantido o direito à paz e à felicidade; sem perdermos nunca o encanto da infância e a magia da juventude, preservando as raízes, fonte perene de inspiração, estejam onde estiverem plantadas: seja em uma terra encantada chamada Canaã ou Belém; seja na morada do pássaro preto de belo nome Uiraúna.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mulher e violência

A violência contra a mulher representa verdadeira tragédia que se repete diariamente no Brasil, quase sempre no ambiente doméstico e onde ocorrem as mais cruéis formas de agressão: verbais, físicas, psicológicas, sexuais e que deixam marcas profundas no corpo e na alma das vítimas, sendo que as primeiras desaparecem com o tempo; já as segundas nunca se apagam.
Trata-se de intolerável violação aos direitos humanos dessas mulheres, com graves consequências, não só para elas mesmas, como também para seus filhos e para toda a sociedade.
Esse, porém, não é um fenômeno de hoje. Fruto da cultura machista, vem há muito tempo desafiando a sociedade e o Estado brasileiro, cujas políticas públicas e ações governamentais têm sido ineficazes na prevenção e no combate à violência doméstica, e não contribuem para eliminar suas causas e seus efeitos perversos.
Após quase cinco anos de vigência da Lei Maria da Penha, que representa valiosa conquista do movimento de mulheres e expressão do avanço das suas lutas em nosso país, o quadro de violência contra a mulher continua dramático, não obstante a lei prever, entre outras medidas importantes, maior rigor na punição aos agressores, especialmente quando a ofensa se dá no espaço doméstico ou familiar.
Lamentavelmente, os resultados da aplicação desse diploma legal ainda são bastante modestos se comparados com os indicadores apontados pela pesquisa "Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado", realizada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Sesc, recentemente divulgada, e que revela índices alarmantes de violência doméstica contra a mulher.
Demonstra que do total de mulheres entrevistadas (2.365), 34% afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência; contra 43% registrados por outra pesquisa realizada em 2001 pela mesma Fundação.
Assim, em nove anos houve uma queda de apenas 9%, percentual muito pequeno, se considerarmos um quadro de tamanha gravidade que vem afrontando anos a fio o direito à vida e à dignidade de tantas mulheres em nosso país.
Devemos aproveitar a oportunidade das comemorações do 8 de março - "Dia Internacional da Mulher" - data celebrada no mundo inteiro há 101 anos, e que no Brasil se estende por todo o mês de março, para refletirmos sobre essa trágica realidade que atinge de forma cruel inúmeras cidadãs brasileiras e que nos constrange a todas e todos.
Ninguém tem o direito de ficar indiferente diante dos dados estarrecedores mostrados por essa pesquisa que projeta, inclusive, que, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil.
Precisamos, pois, dar um basta a essa barbárie e exigirmos do Estado e do governo políticas públicas efetivas e medidas enérgicas no sentido de coibir essa reiterada violação aos direitos humanos das mulheres no Brasil.
Sem a garantia e o respeito a esses direitos não podemos dizer que vivemos numa sociedade civilizada e verdadeiramente democrática.

Artigo publicado no site Brasil Econômico em 10/03/11.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Discurso de posse da Câmara Municipal de São Paulo em 01/01/1989

"O Povo resolveu dar um basta"


Desejo transformar esta solenidade de posse como Prefeita da maior cidade do País, numa homenagem e num ato de reparação pelos hediondos crimes cometidos contra a vida de trabalhadores:

  • camponeses da Paraíba;
  • garimpeiros de Serra Pelada;
  • metalúrgicos de Volta Redonda;
  • seringeiros do Acre;
  • crianças e adultos levados pelas cheias de São Paulo;
  • índios, negros, mulheres desrespeitadas em seus direitos fundamentais em todos os recantos deste imenso País.
Vocês, meus irmãos, estão aqui e sempre estarão presentes onde houver um ser humano lutando por justiça e por liberdade.

Cerimônia da Posse

Ao receber este mandato das mãos soberanas do povo, declaro o meu compromisso incondicional com a luta de todos os trabalhadores brasileiros na defesa do direito inalienável à vida e que só será plenamente assegurado quando todos tiverem "terra, trabalho, justiça e liberdade".

Os resultados eleitorais de 15 de novembro têm um significado histórico transcendental. É clara e inequívoca a manifestação de repúdio aos reiterados episódios de barbárie que se registram em nosso país, com a conivência dos governos que, além de permitirem a impunidade de tais crimes, nada fazem para eliminar as causas que os originam.

Nestas eleições, o povo resolveu dar um basta a tudo isso, ao "vale tudo" da política brasileira.

Decidiu romper com valores seculares que deram sustentação ao coronelismo, ao fisiologismo, ao clientelismo e às mais variadas formas de corrupção que caracterizam o comportamento político das elites em nosso país.

De repente, quando tudo parecia perdido, quando o povo estava prestes a não acreditar em mais nada, um raio de esperança surge no meio desse povo que começa a se dar conta de que o novo é ele que cria, de que o futuro está aberto e que em suas mãoes se coloca a possibilidade de se reconstruir o Brasil.
Teve início, portanto, um processo de tomada de consciência coletiva da premente necessidade de mudanças e que se expressou, concretamente, na ruptura de valores tradicionais enraizados na prática política.

A opção por uma mulher, uma nordestina, uma filha de camponeses marca o começo de um novo tempo gestado pelo próprio povo, e que se desdobrará num processo de amplas e profundas transformações. O povo resgatou a esperança e a fé na sua própria força e tomou nas suas mãos os destinos da coletividade.

Quero salientar, ainda, o significado histórico da união das forças democráticas e progressistas, na coligação "Partidos do Povo", que não só contribuiu para a vitória eleitoral de 15 de novembro, mas sobretudo demonstrou a conveniência e a necessidade da articulação dessas forças para a consolidação e ampliação da democracia.
Em Uiraúna, comemorando a vitória
Foi uma rica experiência de convivência democrática para os militantes dos Partidos da coligação, além de ter se constituído num elemento de conscientização política de suas bases.

A campanha da coligação "Partidos do Povo" se deu em torno de uma proposta política e programática caracterizada pela perspectiva de construção de um governo democrático e popular.

O caráter popular desse governo será dado pela inversão de prioridades, no sentido de atender aos direitos sociais da população trabalhadora, historicamente preterida quando da elaboração e implementação das políticas públicas.

Será um governo democrático, enquanto propiciará a efetiva participação popular nas decisões político-administrativas, além de estimular e respeitar a organização autônoma e independente dos trabalhadores, na perspectiva de construção do autêntico popular.

Temos plena consciência da responsabilidade histórica que recai sobre nossos ombros.

Vislumbramos as enormes dificuldades a superar para viabilizar, pela primeira vez na história de São Paulo, um governo democrático e popular, mas estou certa de que todos aqueles que participaram da campanha e que compartilharam da busca e da alegria da vitória assumirão conosco a gigantesca tarefa de transformar em realidade o maravilhoso sonho, de há muito acalentado pelo nosso povo, que é o de exercer plenamente a cidadania.
Espero contar também com o apoio imprescindível dos Srs. Vereadores da Câmara Municipal de São Paulo.

Tenho especial apreço por este legislativo municipal, onde comecei, em 1993, minha experiência parlamentar.

Aqui, durante quatro anos, no exercício de um mandato popular, tive oportunidades de ampliar e aprofundar meus conhecimentos sobre São Paulo e, portanto, de me preparar para responder às complexas tarefas e imensas responsabilidades que ora me são confiadas pelos paulistanos.

Sou profundamente grata por tudo isso e, à frente do Poder Executivo Municipal, tratarei esta Casa com a máxima deferência, respeitando sua autonomia e independência, sempre no interesse da cidade.

Saúdo a todos os Srs. Vereadores da legislatura que ora se inicia, desejando-lhes um trabalho profícuo, sobretudo como Constituintes Municipais.

Está nas mãos de V.Excias. a edificação das bases institucionais que sustentarão a construção do futuro de S. Paulo.

Como Executivo Municipal, coloco-me inteiramente à disposição desta Casa, para que essa histórica tarefa seja realizada com pleno êxito, o que dependerá, sobretudo, da direta e efetiva participação popular.

Executivo e Legislativo temos a responsabilidade histórica de, juntos com o nosso povo, prepararmos São Paulo para responder os extraordinários desafios que lhe estão reservados até o fim do século e na difícil travessia para o terceiro Milênio.

Somam-se a isto, as tarefas e dificuldades do presente, agravadas pela situação de crise aguda vivida pelo país.

Vamos governar num quadro de desagregação profunda da tramitação conservadora e do Governo Sarney, cuja política econômica, submetida aos ditames do F.M.I., está voltada para os interesses do grande capital nacional e internacional, penalizando de forma insuportável as classes trabalhadoras.

Com uma inflação de 30%, ao mês, os slários são corroídos diariamente e o padrão de vida da população desce a níveis muito baixos.

Aguçam-se os conflitos pela terra e as lutas por habitação, transporte, saúde, etc.

A violência se generaliza, atingindo brutalmente a população.

Os "pacotes" se sucedem, caindo de forma impiedosa sobre a cabeça do povo.

Mas de nada adianta. A inflação e a recessão resistem e não poderia ser diferente, já que todas as medidas econômicas se limitam a tratar os sintomas, sem ir às raízes dos problemas.

O resultado de tudo isso é, de um lado, a degradação das já insuportáveis condições de vida dos trabalhadores, de outro lado, o escandaloso enriquecimento daqueles que, em seu benefício, sempre tiveram o controle da economia nacional.

O governo aumenta os impostos e canaliza recursos para alimentar e rolar a dívida pública, o que se transformou em mecanismo de espoliação, através do qual o trabalho de todo um povo é entregue, de mãos beijadas, a credores nacionais e estrangeiros.
Não satisfeito com este verdadeiro saque contra a nação, o grande capital volta suas vistas para as empresas estatais, para as reservas minerais, para os serviços públicos e lança a nova palavra de ordem: "privatização".

Não lhes basta o fruto do trabalho, sob a forma de lucros, juros, royalties e pagamento de dívidas mil vezes já pagas, querem se apropriar diretamente do patrimônio nacional.

Com o agravamento da crise econômica e com a absoluta falta de legitimidade do governo de Nova República o país entrou numa crise política de graves consequências.

Tudo isso faz crescer a tensão social e é enorme a insatisfação popular, mas o aparelho repressivo continua intato e atento a qualquer movimentação da massa.

Se o avanço das lutas dos trabalhadores rurais é um sinal positivo, não podemos ignorar que nunca se matou tanta liderança camponesa como agora.

Se a organização dos trabalhadores urbanos se fortalece na luta contra a especulação imobiliária e pelo direito à moradia, vale lembrar que a repressão policial tem sido extremamente eficaz na defesa da propriedade privada da terra, chegando ao extremo de ceifar vidas humanas. Como ocorreu no início de 1987.

Se as lutas, manifestações e greves têm se multiplicado, e se tem crescido a força do sindicalismo combativo, não podemos esquecer que até agora não se conseguiu deter o avanço da política de arrocho salarial e recessão imposta pelo governo.

Todo esse quadro se reflete diretamente sobre os municípios onde se situam as demandas coletivas por bens e serviços e cujos recursos, sempre aquém das reais necessidades da população, estão sofrendo cortes por parte do Governo Federal, o que contribui para agravar ainda mais os problemas locais e regionais.

Enquanto isso, o governo esbanja recursos em obras não prioritárias como a construção da Ferrovia Norte-Sul.

Em São Paulo essa situação assume proporções gigantescas, pois, além dos problemas crônicos do município, teremos que enfrentar os que foram deixados pela administração que hoje termina seu mandato, e que se expressam, sobretudo, por uma gigantesca dívida financeira e, o que é pior, por uma extraordinária dívida social.

Tais problemas que desafiam nossa argúcia e vontade férrea de acertar, exigem soluções criativas e corajosas.

Há caminhos não andados que esperam por nós.

Permitam-me concluir pela voz do poeta Guimarães Rosa que clama:

" Sendo a vez,
  Sendo a hora,
  Entende, atende,
  Toma tento,
  Avança, peleja
  E faz".

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mulheres e as eleições

A eleição da primeira mulher – Dilma Roussef – para Presidente da República é, sem dúvida, um fato extremamente relevante, a ser celebrado, não só pelas mulheres, mas também pelo conjunto da sociedade brasileira. É resultado do avanço da organização política das mulheres e do fortalecimento de suas lutas em defesa dos seus direitos de cidadania, inclusive o de ocupar espaço nas esferas de poder. Entretanto, os resultados das últimas eleições confirmam a subrepresentação das mulheres nos espaços institucionais de poder.

Com efeito, 16 mulheres disputaram o cargo de governadora de estado, mas apenas 2 se elegeram. Quanto à bancada feminina na Câmara dos Deputados, é de apenas 45 deputadas, o equivalente a 8,7% do total de 513, o mesmo número da legislatura anterior. No Senado, passou de 12% para 14%, portanto um aumento muito pequeno.

Segundo estudo da União Interparlamentar (UIP), o Brasil ocupa, num total de 189 países, o 142° lugar em presença de mulheres no Poder Legislativo, com menos de 9% na Câmara dos Deputados. Na América Latina, fica à frente apenas do Haiti (4,1%) e da Colômbia (8,4%). Está longe de outros países, como Cuba (43%), Argentina (40%), Costa Rica (36,8%) e Perú (29,2%).

Após muita luta das mulheres, foi aprovado um dispositivo na Lei Eleitoral (n° 9.504/97) que estabelece a presença de, no mínimo, 30% de mulheres nas chapas em eleições para cargos proporcionais. No entanto, por mais de uma década, isso representou mera conquista formal, visto que os partidos não cumpriam a norma, sem sofrerem qualquer sanção.   

Em 2009, foi feita uma Minirreforma Eleitoral (Lei n° 12.034) que obriga os partidos a preencherem a cota de 30% de candidaturas femininas, sob pena de sanção prevista na lei.
Contudo, geralmente as mulheres não dispõem de condições objetivas para disputar eleições em igualdade com os homens, como falta de recursos financeiros, insuficiente experiência política e invisibilidade pública.

Para fazer face a essa realidade, outras conquistas foram incorporadas à nova lei eleitoral, como a reserva de 5% do Fundo Partidário, destinados à formação política das mulheres, e 10% do tempo de propaganda partidária no rádio e na televisão (exceto em ano eleitoral) à participação das mulheres.

Esses são avanços importantes, porém insuficientes para corrigir o déficit de representação política de mais de 50% da população brasileira, as mulheres, que estão excluídas dos espaços de poder.

Diante desse quadro, não se pode afirmar que existe plena democracia no Brasil. É necessário, pois, uma ampla e profunda reforma política, para além de mudanças pontuais nas regras eleitorais e normas partidárias, como tem sido feito, e que seja capaz de corrigir as graves distorções do sistema político brasileiro.

Enfim, a inclusão das mulheres e outros segmentos da sociedade, como os negros e os índios, na vida política do país é condição, não só para a consolidação da democracia, mas também para elevar o nível de civilização da nação brasileira.

Publicado no Site Brasil Econômico - 22/01/2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

VINTE ANOS DO SAMBÓDROMO

Prefeita Luiza Erundina corta a fita inaugural do Sambódromo ao lado de Júlio Albertoni

Ao comemorarmos os primeiros vinte anos do Sambódromo de São Paulo, importante conquista dos paulistanos, quero saudar a Liga Independente das Escolas de Samba que, ao longo dessas duas décadas, constrói a mais bela e grandiosa manifestação de cultura popular: o Carnaval paulistano. 

Uma das minhas grandes alegrias como prefeita desta cidade que tanto amo foi realizar um antigo sonho dos sambistas de São Paulo: ter um lugar especial para o desfile das escolas de samba. 

Na época, Leandro Silva Martins, presidente da Escola de Samba Leandro de Itaquera e da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, dizia que “a passarela era um velho sonho dos sambistas” e que acreditava que em 1991, São Paulo teria um sambódromo e que “o carnaval daquele ano seria o maior e o mais bonito de toda a história de São Paulo.”

Ademais, a ideia de se construir uma passarela do samba era uma solução para um problema antigo, ou seja, comprometimento de 90% da verba destinada ao Carnaval com montagem e desmontagem de arquibancadas e ornamentação da Avenida Paulista, onde se realizavam os desfiles carnavalescos. 

Para resolver definitivamente esse problema. Determinei e o então presidente da Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo, o empresário Júlio Albertoni, que tomasse as medidas necessárias à construção do Sambódromo paulistano. 

Como primeira providência, sancionei a Lei n° 10.831/1990 que “oficializa o Carnaval da Cidade de São Paulo, revoga a Lei n° 7.100/1967, e dá outras providências.” Esta lei atribui à Prefeitura a responsabilidade de organizar o Carnaval, por meio da Anhembi S/A, e reconhece e institucionaliza a representação das Escolas de Samba, mediante entidades associativas. 

No dia 30 de maio de 1990, após eficiente trabalho da direção da Anhembi, aprovei o projeto doado à prefeitura pelo arquiteto Oscar Niemeyer, para a construção do pólo de arte e cultura popular de São Paulo – o sambódromo. Esse projeto previa uma passarela de 530 metros de comprimento, por 14 metros de largura, abrangendo uma área total de 40.000 m², sendo 29.260 m² de área construída. Previa ainda que, ao longo da passarela, seriam construídas arquibancadas e, embaixo, funcionariam um pronto socorro com 40 leitos, uma creche para 400 crianças, filhos de famílias da região, e uma escola de artes. 
Maquete do Sambódromo - Projeto de Oscar Niemeyer

A um custo estimado de U$ 9 milhões, o projeto foi desenvolvido dentro do conceito de obra para múltiplos usos. O espaço seria utilizado para eventos culturais e esportivos, concertos musicais, exposições e festivais de cinema ao ar livre, torneios de várias modalidades de esportes, além dos equipamentos sociais já mencionados. 

Na ocasião, a prefeita declarou: “Este é o presente que eu quero dar a São Paulo”, ao determinar o dia 25 de janeiro de 1991, data para fazer a entrega da obra à população paulistana. 

Em razão das fortes chuvas que castigaram a cidade naqueles dias, o ato de inauguração da nova passarela do samba foi adiado para 1° de fevereiro.
Ao tomar conhecimento do projeto declarei: “Fico feliz com a concepção de um equipamento público, que ficaria grande parte do tempo ocioso, ser transformado num palco de manifestações cultuais acessíveis a toda a população.”

Prefeita vistoria as obras do Sambódromo

Entretanto, a construção da obra enfrentou grande dificuldade em razão da Câmara Municipal não autorizar mudança na lei de zoneamento, o que impediu a Prefeitura de construir as arquibancadas definitivas, de concreto, conforme o projeto. A solução provisória foi montar arquibancadas de aço tubular, com capacidade para 25 mil pessoas e 52 camarotes, a serem desmontados após os desfiles do Carnaval.

No dia 1° de fevereiro de 1991, inaugurei o Pólo de Arte e Cultura Popular de São Paulo – o Sambódromo, concretizando o sonho dos sambistas paulistanos que, há mais de 25 anos, lutavam por espaço próprio e definitivo para os desfiles de Carnaval. 

O ato de inauguração contou com minha presença e a de representantes de todas as escolas de samba da cidade e, na ocasião, assinei decreto criando o Conselho Municipal de Turismo com a finalidade de estabelecer políticas para estimular o setor. 

No dia 6, as duas campeãs do ano anterior – Camisa Verde e Branco e Rosas de Ouro – fizeram um ensaio geral para reconhecimento da pista. 

A abertura dos desfiles do primeiro Carnaval realizado no Sambódromo ocorreu no dia 9, quando a passarela do Samba foi palco de apresentação das dez escolas que formavam o grupo especial. 

Naquele mesmo ano, no dia 1° de novembro, foi iniciada a construção de arquibancadas, com 500 metros de extensão e 350 metros de altura, como previa a lei de zoneamento. 

Encaminhei projeto de lei para alterar o zoneamento do local, mas os vereadores de oposição dificultaram a aprovação e sem autorização do legislativo ficamos impedidos de construir arquibancadas maiores. Isso nos obrigou a contratar, mais uma vez, arquibancadas tubulares desmontáveis, para viabilizar os desfiles de Carnaval de 1992. 

Em 27 de fevereiro desse mesmo ano, arquibancadas de concreto no Sambódromo, sendo cinco módulos de 500 metros de extensão, por 3,8 metros de altura, com capacidade para 10 mil pessoas. Foram instaladas também arquibancadas tubulares desmontáveis para outras 10 mil pessoas, porque a Câmara Municipal só aprovou a alteração na lei de zoneamento, permitindo a construção definitiva de toda a estrutura do Sambódromo, de acordo com o projeto, quando não havia mais tempo para executarmos as obras e completarmos a passarela para o Carnaval de 1992, o último do nosso governo. 

Prefeita Luiza Erundina no Carnaval de 1991

Enfim, quero manifestar, com alegria e entusiasmo, minha saudação calorosa a São Paulo pelo vigésimo aniversário do Sambódromo paulistano. 

Que o Carnaval de 2011 seja a apoteose da maior festa de cultura popular de todos os tempos e nossa justa homenagem a todas e todos os que, dia após dia, constroem esta generosa e fantástica “Cidade dos Mil Povos”. 

Parabéns São Paulo!!!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

AUTÓDROMO MUNICIPAL DE INTERLAGOS EM SÃO PAULO-CAPITAL: VINTE ANOS DO GP-F1

A Prefeita Luiza Erundina com Piêro Gância.


No dia 07/11/2010, realizou-se mais um grande Prêmio Brasil de F-1, o vigésimo após  a inauguração do novo Autódromo Municipal de São Paulo, ocorrida no dia 21/03/1990, portanto há 20 anos atrás.
Como prefeita de São Paulo e com o fundamental apoio de Piero Gância - na época, presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo e representante do Brasil na Federação Internacional de Automobilismo (FIA) – conquistamos para nossa cidade a realização desse importante evento esportivo, que o Brasil havia perdido em razão do grave acidente que aconteceu no último grande Prêmio de F-1, no Autódromo de Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro, e que deixou paraplégico um dos pilotos que disputaram a corrida. Além disso, o país não tinha outro autódromo em condições de atender as exigências da FIA em termos técnicos e de segurança.
Logo que assumi o governo, visitei todos os equipamentos e serviços da prefeitura para verificar como se encontravam e o que seria necessário fazer para  que melhorassem.
Na visita que fizemos ao Autódromo, acompanhada por alguns secretários, constatamos o estado de deterioração e ociosidade daquele equipamento. Situado em uma área de um milhão de metros quadrados, bastante valorizada, cercado por favelas onde viviam milhares de famílias em situação de extrema pobreza.
Na ocasião, fui informada pelo administrador do autódromo, o funcionário da prefeitura, Chico Landi, sobre o número de funcionários municipais lotados lá e os recursos orçamentários destinados à manutenção e funcionamento daquele equipamento, cuja programação de atividades se limitava quase que exclusivamente a treinamento de corrida de Kart, beneficiando apenas jovens, filhos de famílias ricas, que se iniciavam naquela modalidade de automobilismo. Avaliando o custo-benefício, concluímos que era bastante desfavorável do ponto de vista do interesse público.
Passamos, então, a analisar o que poderia ser feito, com vistas a um melhor uso daquele valioso patrimônio público no interesse da cidade. Algumas hipóteses foram cogitadas. Uma, seria fechar o autódromo e destinar a área à construção de unidades habitacionais de interesse social, para atender a população das favelas do entorno. A segunda, seria reformar o autódromo para colocá-lo em condições técnicas e de infraestrução adequadas, à altura de se pleitear que São Paulo voltasse a sediar o grande Prêmio Brasil de F-1.
Intui, naquele momento, que essa solução seria de grande interesse para o município, não só do ponto de vista esportivo, mas também econômico, social, cultural e político. Isso porque dinamizaria a atividade turística, gerando emprego e renda, numa conjuntura de desemprego e recessão econômica; elevaria a arrecadação de tributos municipais; e promoveria políticamente a cidade em âmbitos nacional e internacional. Por tudo isso, escolhemos, esta solução, após discuti-la com a equipe de governo.
Passamos, imediatamente, a fazer os primeiros contatos, no sentido de viabilizar a proposta. Até, então, era só entusiasmo e otimismo. Não imaginávamos a reação contrária que veio a seguir de vereadores de oposição ao nosso governo e também do P.T., meu partido na época, que não entendeu as razões da nossa decisão. Prefiria a primeira proposta, ou seja que o governo, utilizasse a área do autódromo para a construção de moradias populares. Só depois ficou comprovado o acerto da decisão, como veremos mais adiante.
A primeira iniciativa que tomei foi procurar o presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, o Sr. Piero Gância, para discutir nossa proposta, o que ocorreu numa reunião realizada no meu gabinete no dia 18 de abril de 1989. Ele foi  solícito e simpático à idéia, comprometendo-se a nos ajudar a trazer de volta para São Paulo o grande Prêmio Brasil de F-1, já a partir de 1990. Saimos da reunião bastante animados diante da receptividade de Piero Gância que no curso desse processo foi um importante aliado e tornou-se um grande amigo nosso. Lamentamos seu recente falecimento na véspera da realização do vigésimo Grande Prêmio Brasil de F-1 após a reforma do autódromo. Devemos a ele, portanto, parte dessa conquista do nosso governo e da cidade.
No dia 12 de novembro de 1989, na condição de prefeita da cidade, e Piero Gancia, como presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, assinamos o contrato para a realização do grande prêmio Brasil de F-1, no Autódromo Municipal de Interlagos. Participou  da solenidade, no meu gabinete, o representante da Associação dos Construtores de Fórmula-1 no Brasil, Tomas Rohonyi, para quem “a Prefeita Luiza Erundina deu um show de trabalho e competência”.
As obras de reforma do autódromo, no valor de 3,5 milhões de dólares, começaram a ser tocadas pela Shell, depois que a empresa  de distribuição de derivados de petróleo assinou termo de cooperação com a Prefeitura. A reforma  de Interlagos traria prestígio para São Paulo. A prova automobilística, inviabilizada no autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, corria o risco de ser transferida para um dos cinco países que a reivindicavam. Além disso, diversos eventos esportivos, culturais e de lazer, que geram aumento de arrecadação de impostos, ocorreriam no novo autódromo. O funcionamento adequado de Interlagos incrementaria as atividades turísticas, comerciais, de hotelaria e de serviços na cidade.
 Na entrevista que dei à Revista “Isto É Senhor”, no dia 31/01/1990, os jornalistas Luiz Fernando Sá e Nirlando Beirão me fizeram a seguinte pergunta:
“Há setores da Imprensa e o próprio Tribunal de Contas que julgam suspeito o acordo feito entre a Prefeitura e a Shell, para viabilizar o autódromo de Interlagos e a corrida de Fórmula-1 este ano em São Paulo. A sra. favoreceu, de fato, uma multinacional?”
Respondi o seguinte:
“Não favoreci ninguém, a não ser a cidade de São Paulo. Por contraditório que pareça, um grande Prêmio de Fórmula-1 favorece a periferia, o trabalhador pobre. Vou ter mais imposto com a Fórmula-1 – milhões de dólares de ISS. Vou dinamizar o turismo, projetar a cidade para o mundo. Vou estimular os investimentos no setor. Vou ter um serviço médico em Interlagos que continuará funcionando o ano todo – para a população pobre da região. Vou ter uma oficina mecânica para ensinar uma profissão aos jovens das favelas. Como achava que a Fórmula-1 era de absoluto interesse para a cidade, negociei com a Shell, assim como negociaria com qualquer outra empresa. Fiz  um negócio muito vantajoso. Antecipei o recebimento de um aluguel de terrenos que sequer defini quais e quantos são. É como um cheque em branco que a Shell nos deu. Um negócio brilhante. A critíca vem de onde? Vem de dois vereadores que foram secretários de Esportes – um deles perdeu a Fórmula-1 para o Rio, o outro não conseguiu recuperá-la. Como podem engulir que uma mulher possa ter conseguido o que eles não conseguiram? Isso incomoda muito os “machistas”.
O jornal Folha de São Paulo, edição de 21/03/1990, publicou a seguinte matéria sobre  minha visita ao Autódromo no dia anterior:
“O envolvimento da Prefeitura de São Paulo com as reformas do autódromo José Carlos Pace, em Interlagos, acabou formando mais uma torcedora ilustre do automobilismo. A prefeita Luiza Erundina passou a acompanhar as corridas de Fórmula 1, coisa que nunca havia feito antes: “já assisti a etapa de abertura do campeonato deste ano, em Phoenix, pela televisão”, confessou a nova tiete dos monopostos. Ela esteve ontem no autódromo e aproveitou para entrar no Box da Minardi para conhecer um carro de perto.
Ela garantiu sua presença no GP Brasil do próximo domingo. Politicamente, disse que torcerá pelos brasileiros, mas acabou confessando sua preferência por Ayrton Senna: “É um campeão mundial. Mesmo enfrentando todas as dificuldades que teve com a Fisa, ainda é uma grande estrela do automobilismo internacional”. Depois de receber de presente um botton da equipe italiana Minardi, Erundina posou para  fotos ao lado do carro, segurando os capacetes  de Pierluigi Martini e Paolo Barilha.
Ela se mostrou surpresa com o resultado visual das reformas em Interlagos. “É surpreendente a diferença. Agora temos um autódromo municipal com características modernas e com tecnologia atual”, afirmou. Erundina confessou sentir-se gratificada com a concretização do projeto “F-1 em São Paulo”, apesar da luta política que continua acontecendo na Câmara Municipal.
O impasse acabou inibindo as várias empresas que, segundo ela, estariam dispostas a cobrirem os gastos com a reforma. “A Vega-Sopave é uma grande empresa e acabou levando a obra em frente mesmo sem o dinheiro necessário”, disse. O custo da obra passou dos US$5 milhões iniciais para US$18 milhões finais”.
No dia 21/03/1990, na presença dos pilotos brasileiros Ayrton Senna e Nelson Piquet, e de representantes de organizações internacionais de automobilismo, cortei a fita simbólica de inauguração do novo Autódromo Municipal de Interlagos, inteiramente reformado para sediar o grande Prêmio Brasil de Fórmula-1, a realizar-se quatro dias depois. Interlagos transformou-se em um dos mais modernos e seguros autódromos do mundo. A Prefeitura também concluiu os serviços de recapeamento, sinalização e pintura de guias e sargetas em 4.000 metros da Av. Interlagos, que serve de acesso ao autódromo.
O jornal Diário Popular, edição de 22/03/1990, publicou a seguinte matéria sobre a inauguração do circuito: “Quatro meses depois de iniciadas as obras para reformulação do Autódromo de Interlagos o circuito foi inaugurado, ontem à tarde pela prefeita Luiza Erundina, que desejou sorte e abraçou o piloto Nelson Piquet”. “Sem o esforço da comunidade de São Paulo nós não estaríamos aqui agora diante dessa obra grandiosa”,afirmou a prefeita, acompanhada por várias autoridades municipais. Erundina mal encerrou suas palavras e um verdadeiro temporal desabou sobre a cidade. Não houve tempo para mais nada. A prefeita acompanhou atentamente a conclusão dos detalhes da obra. Domingo e terça-feira ela compareceu ao autódromo e agora espera a fase mais difícil de todas: a tentativa dos vereadores de oposição de cancelar o acordo com a Shell. Eu estou preparada. O cerco vai aumentar, mas eu vou pagar esse preço”, disse Erundina.
Em 25/03/1990, assisti ao grande Prêmio Brasil de Fórmula-1, o primeiro após a reforma. Antes da prova, percorri a nova pista do Autódromo Municipal de Interlagos, tendo sido aclamada pelos torcedores, que aplaudiram e gritaram o nome da prefeita na frente da reta dos boxes. Também participei da solenidade de hasteamento da bandeira nacional e inaugurei placa em homenagem ao ex-piloto José Carlos Pace, que dá nome ao autódromo. Em entrevista, garanti que Interlagos sediaria provas de Fórmula-1 pelo menos nos próximos cinco anos. Lembrada de que vereadores de oposição vinham questionando a reforma executada no autódromo, desabafei: “É bom que o mundo veja São Paulo, e que todos percebam que a cidade não perdeu por ter uma mulher, e nordestina, à frente do governo”.
O jornal Folha da Tarde, edição de 26/03/1990, publicou uma matéria cujo título era:

“ Estrela de Erundina sobe na pista”
“A Prefeita Luiza Erundina foi uma das estrelas da corrida de ontem. Ela arrancou aplausos da torcida, como os pilotos brasileiros, quando deu uma volta pela pista. Erundina estava satisfeita e orgulhosa. “No começo deste projeto, tive momentos de angústia e aflição, mas vejo que valeu a pena”, disse ela, emendando que adora desafios. “Além de trazer o GP do Brasil de volta a São Paulo, elevamos o nível de segurança e modernidade em todos os autódromos do mundo”.
Erundina sabe, no entanto, que a briga está apenas começando, pois a Câmara Municipal ainda não aprovou o acordo entre a Shell e a Prefeitura. “Conto com o apoio da população neste momento”, pediu ela. “Alguns vereadores que eram contrários já perceberam a importância que a corrida                        tem para a cidade”.
Ela garantiu que não há nada que tire São Paulo do circuito da F-1 nos próximos cinco anos. O presidente da Fia/Fisa, Jean-Marie Balestre disse, no sábado, que o campeonato mundial pertence à Fisa. “Ele fez esta declaração porque a tensão emocional dele é muito grande. Afinal este é o país do Senna”.
Ela disse também que o autódromo José Carlos Pace terá uma agenda bastante movimentada este ano. “Vamos apoiar outras modalidades do automobilismo”.
Acompanhada de seu assessor de comunicação, Chico Malfitani, Erundina chegou a Interlagos às 10h10. Hasteou a bandeira, cumprimentou o piloto Nelson Piquet e o diretor de prova Miguel Hidasy, e foi muito aplaudida.
Vestindo saia e blazer rosa e camisa  de seda no mesmo tom, a Prefeita mostrou que seu forte não é mesmo o esporte. Foi a primeira vez que Erundina assistia a uma corrida em um autódromo. Ela chegou a garantir que o piloto Mauricio Gugelmin largaria ontem, mas depois que
avisaram que o piloto havia sido desclassificado, ela respondeu bem humorada. “Eu comecei a me interessar pelo esporte, mas ainda não sei nem os nomes das equipes”.
O Jornal Folha de São Paulo, edição de 26/03/1990, publicou matéria cujo título era: “Prefeita é aplaudida pelo público mas não participa da premiação”.
“A Prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, teve seu dia de rainha ontem no GP Brasil. Aclamada pelos torcedores que gritaram seu nome quando ela passou pela reta dos boxes. Erundina disse que o autódromo de Interlagos era um presente para a cidade de São Paulo.Emocionada, falou também que pelo menos a população entendeu que apenas foi feito o melhor para a cidade. “É bom que o mundo veja São Paulo e que todos percebam que a cidade não perdeu por ter uma mulher, e nordestina, à frente do governo”, desabafou.
Antes disso, Erundina participou da inauguração de uma placa em homenagen do ex-piloto de F-1, José Carlos Pace, que dá nome ao autódromo. Ela chegou de carro e foi levada até o local onde desceu o helicóptero que trouxe o presidente Collor. Deveria ter ido junto com a comitiva do presidente até o camarote do Unicor, mas não foi esperada e teve que retornar de carro para encontrar Collor.
“Estive com ele apenas por alguns momentos. O diálogo foi simples e rápido”, afirmou a prefeita, que assistiu a corrida do prédio da administração, no outro lado da pista. Apesar dos esforços de Piero Gância, membro do conselho mundial da Fisa, para que ela participasse da cerimônia de entrega dos prêmios no pódio, isso acabou não acontecendo.
A promoção e o sucesso do GP Brasil podem ser úteis hoje na câmara Municipal. Às 15 horas será feita uma análise do acordo entre a Shell e a Prefeitura para a reforma de Interlagos. A comissão que analisa o caso votou pela anulação do contrato por 15 votos a 7. A decisão final será do
plenário da Câmara e o presidente da Câmara, Eduardo Matarazzo Suplicy, convidou Gância  para falar aos vereadores antes da votação final”.
No dia 02/04/1990, recebi diploma da FISA – Federação Internacional de Esportes Automobilísticos. A homenagem, um pôster com as assinaturas e o agradecimento de todos os pilotos que participaram do grande Prêmio Brasil de Fórmula-1, no Autódromo Municipal de Interlagos, foi entregue em solenidade realizada no salão nobre do gabinete da prefeita, pelo presidente da Federação Paulista de Automobilismo, Marcos Augusto Corsini.
Assisti, em 07/04/1990 a largada das “Mil Milhas Brasileiras”, a prova mais tradicional do automobilismo nacional, no Autódromo Municipal de Interlagos.
Em 25/04/1990, reuni-me com fabricantes, pilotos, mecânicos e patrocinadores de corridas de “Kart”. Decidi reativar o Cartódromo Municipal de Interlagos, e trazer o esporte de volta a São Paulo. Empresários do setor se comprometeram a pagar parte das reformas do cartódromo, localizado na área do Autódromo Municipal de Interlagos.
No dia 26/04/1990, denunciei o desaparecimento de parecer técnico que considerava legal o acordo firmado entre a Prefeitura e a Shell, para reformar o Autódromo Municipal de Interlagos. O parecer técnico foi arrancado dos autos de processo do Tribunal de Contas do Município, antes do próprio T.C.M. pronunciar-se contra o acordo. Pedi providências à Câmara Municipaligi a apuração dos fatos e a punição dos responsáveis. O TCM é um órgão auxiliar do poder legislativo municipal. Também encaminhei representação ao Ministério Público, solicitando investigação criminal no processo adulterado.
Em 19/08/1990, vistoriei obras no Cartódromo Municipal de Interlagos. A Prefeitura executou novo recapeamento, com asfalto curado, e a Associação dos Kartistas, as demais obras de infraestrutura. Inaugurei

busto de bronze em homenagem ao piloto José Carlos Pace, morto em 1977, nos jardins do Autódromo de Interlagos.
Em 28/09/1990, a Secretaria de Esportes promoveu a “Bateria de Rachas” no Autódromo Municipal de Interlagos, com a finalidade de revelar novos pilotos, e evitar a ocorrência de “rachas” em ruas e avenidas da cidade.
Em 27/11/1990, recebi em audiência o bicampeão mundial de Fórmula-1, Ayrton Senna, para quem detalhei as obras que estavam sendo executadas no autódromo, atendendo a sugestões do próprio piloto.Convidei-o para supervisionar os trabalhos.Estavam sendo aterrados 25 metros do lago superior, para aumentar a área de escape.Também seria ampliada a área de escape do começo do retão. No final dos boxes, a Prefeitura iria aumentar o recuo, medida importante para dar segurança aos pilotos que disputarão em Interlagos, em 1991, uma das etapas do campeonato mundial de motociclismo. Ayrton Senna agradeceu à prefeita, e disse que São Paulo possuí um dos  autódromos mais modernos do mundo. Prometeu empenho para vencer o próximo grande Prêmio Brasil de Fórmula-1 e aceitou a missão de acompanhar as obras, transformando-se no “novo assessor” da prefeita.
No dia 19/12/1990, eu e a Autolatina, empresa “holding” que controlava a Ford e a Volkswagen, assinamos convênio de colaboração técnica para instalação de escola de mecânica de automóveis, no Autódromo Municipal  de Interlagos.Os cursos básicos de mecânica iriam beneficiar adolescentes carentes da Zona Sul de São Paulo. A Autolatina forneceria máquinas e ferramentas.
Em janeiro de 1991, reuni-me com o vice-presidente da Confederação Internacional de Motociclismo, Vito Ippolito, e com o presidente da Confederação Brasileira de Motociclismo, Alfredo Tambucci. Naquela oportunidade, garanti a conclusão de obras no Autódromo Municipal de Interlagos, em tempo hábil para São Paulo sediar duas provas do Campenato Mundial de Motociclismo.
No dia 16/02/1991, vistoriei obras no Autódromo Municipal de Interlagos acompanhada do presidente da Federação Internacional de Motociclismo Joe Vaessen. Pela primeira vez na história, o autódromo paulistano sediaria duas etapas do Campeonato Mundial de Motociclismo. Interlagos, também foi inspecionado pelo comissário de segurança da Federação Internacional de Automobilismo Esportivo, Roland Bruyinseraede, que aprovou as reformas para o “Grande Prêmio Brasil de Fórmula-1”.
Em 24/03/1991, assisti ao “Grande Prêmio Brasil de Fórmula-1”, disputado no Autódromo Municipal de Interlagos, cuja organização foi um sucesso. Câmaras de televisão projetaram o evento esportivo para todo o mundo. Completando a festa, o bicampeão mundial de Fórmula-1, o brasileiro Ayrton Senna, ganhou a corrida.
No dia 06/11/1991, inaugurei a Escola Básica de Mecânica de Automóveis. Instalada em área de 424 metros quadrados, no Autódromo Municipal de Interlagos, foi resultado de convênio assinado entre a Prefeitura e a Autolatina, a holding que controlava a Volkswagen e a Ford. Trinta e seis alunos já estavam matriculados, para fazer curso gratuito de formação profissional. Têm aulas práticas e teóricas sobre mecânica e professores da Prefeitura ensinam português, matemática e conhecimentos gerais.
Em 07/11/1991, entreguei a “Chave da Cidade” ao tricampeão mundial de Fórmula-1, Ayrton Senna. A homenagem foi conferida na ala oficial do aeroporto de Congonhas na zona sul, assim que o piloto desembarcou em território nacional, após a conquista do título. A arrancada de Ayrton Senna começou com a vitória no “Grande Prêmio Brasil de Fórmula-1, disputado no Autódromo Municipal de Interlagos, no início da temporada.
Em sessão solene promovida pela Câmara Municipal de São Paulo, no dia 13/05/2010 a requerimento do Vereador Antonio Goulart, a cidade de


São Paulo comemorou os VINTE ANOS DO GRANDE PRÊMIO BRASIL DE FÓRMULA-1, realizado no novo Autódromo Municipal de Interlagos. Era o reconhecimento da importante conquista, pela mesma Câmara de Vereadores que processara a então Prefeita Luiza Erundina de Sousa pela competência, coragem e ousadia de trazer de volta para São Paulo o G.P. de F-1, mantendo, assim, o Brasil no calendário da Federação Internacional de Automobilismo.
Participei dessa sessão solene, ocasião  em que, com muita emoção, relatei uma das lutas heróicas que tivemos que travar com o Poder Legislativo Municipal.
No fim, ganhou a cidade e se fez justiça à primeira mulher prefeita de São Paulo.