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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Compartilhando Homenagens com Uiraúna


*Publicado na Revista FELC n° 10 / Ano X / Jan 2016

Neste ano que termina o povo de São Paulo me prestou duas homenagens que se revestem de especial significado, transcendendo meus méritos pessoais, e que divido com meus conterrâneos de Uiraúna, terra querida onde minhas raízes estão plantadas.

A primeira homenagem foi a medalha “São Paulo Apóstolo”, sendo meu nome escolhido em votação promovida pela Arquidiocese de São Paulo e que foi entregue a mim e a outros ilustres homenageados por sua Eminência Reverendíssima Cardeal Odilo Pedro Scherer em ato solene realizado no dia 25 de agosto de 2015.

 A segunda, foi o Prêmio de Direitos Humanos “Dom Paulo Evaristo Arns”, concedido pela municipalidade de São Paulo e que tive a honra de receber pelas mãos de Sua Excelência o Prefeito Fernando Haddad no dia 10 de dezembro deste ano, data em que se comemora o Dia Mundial dos Direitos Humanos, em solenidade que contou com as presenças de autoridades e muitos amigos, conferindo, assim, mais prestígio e significado ao generoso gesto dos paulistanos para comigo.

Ambas as homenagens, carregadas de simbolismo, foram oportunidades para expressar minha gratidão a São Paulo pelo muito que a cidade tem feito por mim, por meus irmãos nordestinos, pelos migrantes do mundo inteiro, que para ela acorrem em busca de sobrevivência e trabalho, de realização pessoal e profissional... enfim, em busca de felicidade.

São Paulo me acolheu quarenta e cinco anos atrás, com a magnanimidade que lhe é peculiar, mas que, ao mesmo tempo, lança desafios de quem tem a vocação de ir na frente para construir, no presente, seu próprio futuro. São Paulo faz isso com arrojo e inspirada no seu lema: “Non ducor, duco.” Idêntica ousadia ela exige de cada um dos cidadãos e cidadãs que nela nasceram ou que para lá migraram.
Desde que lá cheguei, me dei conta de que teria que ser forte se quisesse sobreviver aos embates que se travam quotidianamente dentro e fora de suas fronteiras. Também entendi que essa era a contrapartida que eu teria que dar pelas oportunidades que a cidade me propiciou.

Lembro-me bem quando, no dia 28 de janeiro de 1971, desembarquei na cidade, há quase quarenta e cinco anos. É como se fosse hoje.

A sensação mais forte que experimentei ao pisar seu chão e ao percorrer suas ruas e avenidas, era de alguém muito estranha e terrivelmente só. Ao mesmo tempo me sentia invadida pelas mensagens sem conta dos anúncios luminosos que se chocavam com as imagens e sons que trazia na memória misturados à saudade sem fim dos que deixara lá longe.

Até lembranças da infância afloravam aos borbotões me atordoando e me trazendo de volta um passado distante como naquela noite em que, ainda muito criança, vi luz elétrica pela primeira vez, quando a professora nos levou para conhecermos a vizinha cidade de Souza.

Levei um tempo para me adaptar ao ritmo do dinamismo da gigantesca cidade. Hoje não sei viver noutro lugar. Diferentemente de quando cheguei a São Paulo, é lá que me sinto em casa e para onde tenho pressa de voltar.

São Paulo mudou muito nessas últimas quatro décadas. Já está longe o tempo em que o frio intenso dos seus dias de garoa fazia o tormento dos que lá chegavam e eram obrigados a se amontoar nas favelas e cortiços que, infelizmente, ainda hoje são a parte triste e feia do cenário da cidade.

Contrastando com isso, crescem parques e áreas verdes, revelando o despertar da consciência ecológica da sua gente e a descoberta da natureza como um dom de Deus à humanidade.

Sabe outra coisa que em São Paulo me encanta? É a variedade de raças, de culturas, de tipos humanos que formam seu povo, o povo paulistano, cuja ousadia levou a que vinte sete anos atrás elegesse uma paraibana de Uiraúna, filha de um seleiro e uma dona de casa, a primeira prefeita de São Paulo.

Um novo capítulo dessa história começou a ser escrito a partir de 1º de janeiro de 1989, quando recebi das mãos soberanas do povo paulistano o mandato para conduzir os destinos de sua cidade. A opção por uma mulher, uma nordestina, uma filha de artesão, marcou o início de um novo tempo na cidade de São Paulo, pelo próprio povo que se tornou o principal protagonista do primeiro governo Democrático Popular da capital paulista.

Ao concluir, registro a emoção que vivi ao receber um Prêmio que leva o nome do amado Pastor e iluminado Profeta da Esperança e dos Direitos Humanos – Dom Paulo Evaristo Arns – a quem muito devo pela sua confiança e decisivo apoio nos momentos de extrema dificuldade que enfrentamos durante o nosso governo.        


Luiza Erundina de Sousa

Deputada Federal – PSB/SP

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A SAGA DO MIGRANTE NORDESTINO


Esta é mais uma crônica de minha autoria publicada por esta Revista. Nas primeiras, escrevi sobre minha terra natal e foi como uma fantástica viagem no tempo, de volta ao passado. Resgatei da memória detalhes de uma experiência em que fatos da vida pessoal e familiar se misturavam e se entrecruzavam com a experiência de vida coletiva numa pequena comunidade com características rurais – a Vila de Belém, distrito do município de São João do Rio do Peixe, no sertão da Paraíba. Revivo, assim, momentos e situações; relembro pessoas que marcaram minha vida no passado e que deram significado ao que ocorreu depois ao longo das últimas quatro décadas.

Sempre me pergunto que interesses esses fatos teriam para os eventuais leitores desta Revista. Claro que não tenho a resposta, mas para mim, pessoalmente,  faz todo sentido, por ser uma forma de me manter ligada às minhas raízes e de preservar, na memória,  o modo de ser que aprendi com meus pais e de cultivar valores e princípios que herdei do meu povo.

Vivi em Belém apenas durante a minha infância e poucos anos da adolescência. A vida de migrante, para mim, começou cedo, seja em razão da seca que nos obrigava a migrar, com toda a família, para outros estados, para não morrermos de fome nem de sede, seja dentro do próprio Estado  em busca de oportunidades para estudar.

Nesse sentido, acompanhei minha tia Lindarrosa, irmã única de minha mãe, por várias cidades da Paraíba, onde ela morou com a família. Em Campina Grande, para onde  levei minha mãe e minhas irmãs, passei a estudar e a  trabalhar  para sustentar minha família. Concluído o curso colegial no Colégio Estadual daquela cidade, tive de suspender meus estudes por não ter condições de ir para a capital para frequentar a Faculdade de Medicina, curso que eu gostaria de ter feito.

Frustrada a expectativa de fazer medicina, só voltei a estudar nove anos depois, quando entrei na Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba. Essa opção a que as circunstâncias me levaram  mudou o rumo da minha vida, pois fui  trabalhar com a população pobre do campo e da cidade e, em consequência,  assumi a  militância política ao tomar consciência  de que só a ação política é capaz de transformar a realidade de exclusão e injustiça a  que a maioria do nosso povo está submetida.

As restrições impostas, na época, pelo regime militar aos que trabalhavam com a população pobre me obrigou a sair do meu estado e migrar  para São Paulo onde passei a trabalhar como Assistente Social nas favelas e cortiços na periferia da cidade. Lá se amontoavam meus irmãos nordestinos expulsos pelo latifúndio e permanentemente ameaçados de despejo de seus barracos  pelo governo  e pelos proprietários de terra na cidade.

Compreendi, então, que tanto lá, no nordeste, como aqui,  no sul do país, a luta é a mesma, ou seja, pela democratização do acesso à terra no campo,  aos trabalhadores que precisam trabalhar, como na cidade, aos   que precisam de moradia. Trata-se, portanto, da mesma luta política pela  Reforma Agrária e pela Reforma Urbana, luta essa que, até hoje, continua sem resultado prático, por omissão e descompromisso dos donos  do  poder no país.

Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal emérito de São Paulo, na apresentação do livro “Os nordestinos em São Paulo”, publicação de 1982,  escreveu “...o migrante estabelece o elo interminável da esperança, mostrando que ela subsiste e se torna força de resistência mesmo nas situações mais adversas”.

Assim se explica porque “o nordestino é antes de tudo um forte” e não desiste nunca da luta. É que ele é movido pela força irresistível da esperança.

                                                             Luiza Erundina de Sousa – Dez.2014  

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Festa na Morada do “Pássaro Preto”

*Publicado na Revista FELC em Janeiro de 2014

Três memoráveis acontecimentos marcam o calendário de Uiraúna neste ano de 2014, tornando-o inesquecível para todos os uiraunenses, tanto os que nasceram e vivem aqui, como os que, como eu, levados por variadas circunstâncias, migraram para outras plagas, mas suas raízes continuam fincadas no solo abençoado da morada do “Pássaro Preto”, bem como para os que para cá vieram e aqui constroem suas vidas.

Como abordar com a necessária competência, num espaço exíguo de uma crônica, fatos tão significativos, como:

- o centenário da Banda de Música Jesus, Maria e José;
- o sexagésimo aniversário da emancipação política de Uiraúna;
- os quarenta anos da Fundação Educacional Lica Claudino (FELC).

Procurei resgatar a memória sobre os aspectos mais relevantes de cada um desses fatos que compõem a parte bonita da história da nossa gente e da nossa cidade, certamente influenciada pelo imaginário de uma criança que aqui nasceu e onde viveu sua infância. Aliás, sempre que escrevo sobre Uiraúna me vejo de volta a um passado que, embora distante, continua presente e vivo na minha vida , conferindo-lhe sentido e despertando saudade.

A história aqui rememorada foi escrita por todos os cidadãos e cidadãs de Uiraúna, desde os mais conhecidos e importantes, aos mais humildes e anônimos, todos construtores desse patrimônio comum, precioso legado para as novas e futuras gerações.

Começo pelo centenário da Banda de Música batizada com o nome da padroeira da cidade - a Sagrada Família – Banda Jesus, Maria e José, cuja história se confunde com a própria história dessa pequena comunidade de pessoas simples e de grande valor pela tenacidade como enfrentam as adversidades de uma natureza hostil e de injustas relações econômicas e sociais que se reproduzem ao longo do tempo.

A Banda representa um valioso patrimônio da cultura paraibana e motivo de alegria para nossa gente e de orgulho e prestígio para a Paraíba pelo êxito alcançado para além das fronteiras do estado. Ao longo desses cem anos descobriu e formou jovens talentosos, com vocação e grande sensibilidade artística.

Mas nem tudo são flores na longa e gloriosa trajetória de nossa Banda. Assim como o povo sofre as maiores agruras causadas pela seca inclemente e precariedade das condições básicas de vida, os músicos que compõem a Banda também não dispõem de meios dignos e estáveis de existência que lhes permitissem dedicar-se integral e exclusivamente à música. A comemoração deste centenário deve servir também para se tomar consciência da responsabilidade de preservarmos esse inestimável patrimônio cultural de Uiraúna, que é a nossa Banda de Música que está entre as mais admiradas do país.

Ademais, não se deve relegar ao ostracismo ou permitir que se apaguem da memória das novas e futuras gerações os nomes dos músicos e maestros que foram os principais protagonistas da história de cem anos da primeira banda de música de Uiraúna, o que seria uma grave e imperdoável omissão e injustiça. 

Há exatamente 100 anos, em janeiro de 1914, no lugarejo denominado Belém do Arrojado, então distrito de São João do Rio do Peixe, promovido, depois, à categoria de município com outro nome, Uiraúna, foi fundada pelo Padre Costa, com a colaboração dos músicos Marcelo Vieira da Costa e Zequinha Correia, a primeira filarmônica de Uiraúna, com o nome de “Banda Correia Costa”.

Porém, os pioneiros do projeto foram quatro músicos cearenses que, perseguidos por motivo de uma rebelião que, na época, ocorrera no Ceará, se refugiaram em Belém do Arrojado onde começaram o trabalho de formação da banda. Eram eles: Raimundo Sá, Luiz Barreto, José Brígido e José Passos.

A Banda funcionou durante treze anos, de 1914 a 1927, quando foi forçada a interromper suas atividades em razão da presença e perseguição de Lampião na região, e devido também ao retorno dos músicos cearenses a Missão Velha, sua terra natal.

Após o tempo em que ficou desativada e com o apoio do novo pároco, retomou suas atividades, com o nome, então, de Banda de Música Jesus, Maria e José, sob a orientação de Misael Gadelha, maestro da cidade de Sousa, que permaneceu três anos na regência da Banda.

O primeiro maestro filho de Uiraúna foi Neco Manuelzinho, um pequeno comerciante que tocava clarinete e tinha como contra mestre Zezinho Correia. Ele era casado com minha tia Lindarosa, irmã de minha mãe, Enedina. A partir de então todos os maestros que dirigiram a Banda eram filhos de Uiraúna, são eles: Misael Correia, Manuel Israel, Expedito Gomes, Ariosvaldo Fernandes, Dedé de Capitão, Valter Luz Alencar e Geraldo Moisés, o atual regente.

Em 1976 a Banda desligou-se da igreja e passou para o Governo Municipal onde permanece até hoje.

Naquele tempo, ainda não existia a profissão de músico. Eles aprendiam tocando na Banda que era contratada para festas de padroeiro e carnavais em Uiraúna e nas cidades vizinhas, pelo que os músicos recebiam apenas alguns trocados.

No ano de 1981, o então prefeito Antônio Aquino contratou os músicos por um salário inferior ao mínimo da época, o que de qualquer forma representava uma ajuda, embora pequena. Essa política continuou na gestão seguinte do prefeito Geraldo Nogueira que chegou a realizar concurso público para preenchimento de vagas na Banda. Hoje, porém, ela enfrenta extrema dificuldade para se manter.

Em Uiraúna, conhecida como a terra dos músicos, existem quatro bandas, a saber: Banda de Música Jesus, Maria e José; Banda Ariosvaldo Fernandes; Banda Marcial Constantino Fernandes Queiroga e Banda Marcial José Alencar. A primeira, participou de vários concursos de bandas de música, colocada, sempre, no primeiro ou no segundo lugar, graças ao talento dos seus músicos, vários deles com passagem por importantes bandas do país. As melhores músicas do seu repertório estão gravadas num CD lançado em 2003.

Registre-se ainda a criação da Sociedade de Difusão Artística de Uiraúna – SODAU, com a finalidade de divulgar, formar e descobrir novos talentos musicais e angariar recursos, sobretudo, junto ao Poder Público.

Agradáveis lembranças nos veem à mente e ao coração em momentos de celebração como este, trazendo de volta um passado distante, repleto de imagens e vivências que nos enchem de saudade e de vontade de viver tudo de novo. Quem não se lembra das alvoradas ao raiar do sol, quando a Banda passava tocando para acordar a cidade e anunciando a chegada do dia da festa? Quem, quando criança, não se juntou à meninada que, alvoroçada, corria atrás da banda que passava “cantando coisas de amor”? Esses são os sentimentos que, creio, dominam a todos nós, uiraunenses, ao celebrarmos o centenário da nossa querida Banda de Música Jesus, Maria e José.

Os três importantes eventos que Uiraúna comemora em janeiro de 2014 estão relacionados entre si e se integram como capítulos de uma mesma história que o seu povo vem construindo ao longo dos últimos cem anos e que continua através das sucessivas gerações, seguindo a lógica da espiral dialética da história.

O centenário da Banda de Música Jesus, Maria e José foi o primeiro capítulo tratado nesta crônica e sua história revela a vocação musical dos uiraunenses e o perfil característico de Uiraúna conhecida como a “terra dos músicos e sacerdotes”, em razão do grande número de padres que saem de lá e o reconhecido talento de seus músicos, o que, de certa forma, explica o fato de existir na cidade quatro Bandas e uma Escola de música que forma jovens profissionais, e que contribui para manter a posição de destaque de Uiraúna na vida cultural do estado da Paraíba, com repercussão no país.

Abordo, a seguir, o segundo evento importante, a comemoração dos sessenta anos da emancipação política de Uiraúna, que, na linha do tempo e como fato histórico, está dentro dos 100 anos de história que este relato abrange.

Um pequeno lugarejo chamado Belém do Arrojado foi o núcleo populacional que deu origem à Cidade de Uiraúna, e que começou com os índios Icós, da tribo dos Cariris Velhos que escolheram aquele lugar atraídos pelo Rio do Peixe que passa pela região e que, naquele tempo, era o principal meio de sobrevivência. Daí vem o nome Uiraúna que é como os indígenas denominam alguns pássaros de cor preta da família dos Icterídeos e que, para mim, o lugar onde nasci passou a ser a “a Morada do Pássaro Preto” – Uiraúna.

Com o nome de Belém, depois Canaã e por fim Uiraúna, a cidade foi fundada em 2 de dezembro de 1953, portanto, há exatos sessenta anos, data de sua emancipação política, conforme Lei Estadual nº 972, sancionada pelo então governador da Paraíba, José Fernandes de Lima. Em 27 de dezembro do mesmo ano foi empossado o primeiro prefeito da cidade, o norte rio-grandense Adolfo Rodrigues.

A autonomia política de Uiraúna foi fruto de uma luta de vários anos e teve à sua frente o médico Oswaldo Bezerra Cascudo que contou com o apoio do então deputado estadual Fernando Carrilho Milanez. O Dr. Oswaldo Cascudo era do Rio Grande do Norte, mas radicado em Uiraúna onde durante toda sua vida exerceu a profissão de médico e lá também atuava politicamente, tendo sido, inclusive, prefeito da cidade.

Por fim, concluo esta crônica, com o terceiro e importante acontecimento histórico que, junto com os outros dois, marca a agenda de Uiraúna no ano de 2014, ou seja, os quarenta anos de fundação da FELC – Fundação Educacional Lica Claudino, fundada em 1974, em Uiraúna, por iniciativa e inspiração de João Claudino Fernandes que, além de grande empresário brasileiro, dirigindo uma vasta rede de negócios em todo o país, se preocupa e investe na melhoria das condições de vida do nosso povo, promovendo a realização de inúmeros e inovadores projetos socioculturais que beneficiam vários municípios da Paraíba, principalmente Uiraúna.

Tudo começou com a criação, em 1974, da Escola Profissional Lica Claudino que, em 2004, se transformou na Fundação Educacional Lica Claudino que, ao longo das últimas quatro décadas, desenvolve um excelente trabalho de educação profissional de nível técnico, formando crianças, adolescentes e jovens, não só no domínio de artes e ofícios, mas, sobretudo, no exercício de sua plena cidadania.

Sob a direção competente de sua Diretora, a Senhora Fátima Claudino, e uma equipe de professores e funcionários igualmente comprometidos e dedicados à causa da educação, tem-se muito a comemorar neste quadragésimo aniversário da Fundação Educacional Lica Claudino, que beneficia enormemente, não só a população de Uiraúna, mas seus benefícios se estendem a vários outros municípios da região.

Enfim, como filha de Uiraúna e cidadã brasileira agradeço a Deus o privilégio de viver esse momento especial de celebração de memoráveis fatos históricos, relacionados ao nosso povo, e que nos orgulham a todos, ao mesmo tempo em que confirmam sua inteligência e determinação ao transformar adversidades e obstáculos em trampolim para alçar voos rumo ao futuro nas asas do “Pássaro Preto”, portador de esperança e de boa nova. Salve Uiraúna!!!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Natal em Belém



Lembro-me com grande emoção da chegada das festas de fim de ano, em Belém, quando era criança. A comunidade inteira se mobilizava durante os dias e semanas que precediam a noite de Natal nos preparativos para a celebração do nascimento do Menino Jesus.

Famílias pobres como a minha faziam as contas para ver quanto sobrara da venda do algodão colhido na última safra para as despesas extras com a compra de uma muda nova de roupa para cada membro da família: vestido para a mãe e as meninas; calça e camisa para o pai e cada um dos filhos homens. Tudo muito simples, conforme nossas posses e como simples e pobre era o Menino que ia nascer numa manjedoura.

Após ansiosa espera, chegava finalmente a grande noite – a noite de Natal. A Vila de Belém toda engalanada; o manzape de farinha de mandioca, recheado com castanha-de-caju, assado no forno à lenha, já estava pronto, bem como os sequilhos de goma, verdadeira delícia que se desmanchava na boca da gente.

O mercado se enchia de bancas, montadas para a venda do que era trazido da roça durante a noite e o dia seguinte da festa. Tinha tudo o que quisesse comprar: feijão-de-corda e farinha de mandioca; broa, rapadura e cocada; alecrim, canela e fumo de rolo; gaiolas com passarinhos das mais variadas espécies alegravam a meninada que, em algazarra, corria solta entre as bancas espalhadas pelo mercado.

Dona Enedina, minha mãe, cafezeira respeitada, tinha sua banca num canto junto de uma das duas portas de entrada do mercado, onde vendiam café e bolos feitos por ela na véspera da grande noite.

Por outro lado, mestre Tonheiro, meu pai, celeiro famoso, por suas celas não machucarem o lombo dos animais, atendia seus fregueses num “quarto” que ficava numa das esquinas do mercado, onde vendia celas e arreios de couro; sandálias de “currilepe” e indumentária para vaqueiros.

No início da noite, meu pai reunia a filharada para distribuir moedas de poucos réis a cada um como se fosse presente de Papai Noel que naquele tempo, não existia para nós nem mesmo como fantasia infantil, tal era a dureza da vida real que não comportava devaneio nem ilusões, como ficou demonstrado no decorrer da vida adulta, sem natais e sem presentes.

Depois de brincarmos até não poder mais e termos gasto o último tostão na feira comprando seriguela, pé-de-moleque e rosário do coco catolé, voltávamos para junto de meu pai que já tinha espalhado couros pelo chão do “quarto” para nos deitarmos sobre eles, onde dormíamos até o raiar do Dia de Natal.

À meia noite, os que não estavam trabalhando na feira iam à Igreja Matriz assistir à “Missa do Galo”, celebrada pelo Pe. Antônio Anacleto, querido vigário da paróquia de Jesus, Maria e José, para comemorar aos pés do presépio o nascimento do Menino Jesus. Era o coroamento das festas de mais um Natal na Vila de Belém, em comemoração ao Natal, ocorrido há dois mil anos atrás em outra Belém, e que revolucionou o mundo e mudou profundamente os destinos da humanidade. 

*Publicado na Revista FELC - Março de 2012

segunda-feira, 25 de abril de 2011

VIAGEM DE TREM EM CARRO DE SEGUNDA

Muito tempo atrás, lá em Uiraúna, quase sempre se viajava de trem por ser mais barato. Aquele trem era bem diferente dos de hoje, mais velozes e confortáveis. Nem se comparam com o “Maria fumaça” de outrora.

Nos povoados onde havia estação, era uma festa cada vez que o trem anunciava, com um longo apito, que estava chegando. Alvoroçada, corria a garotada toda à estação para esperá-lo. Lá já estavam vendedores ambulantes que, aos gritos, procuravam atrair a atenção dos passageiros para os produtos, que levavam para vender: bolo de milho e tapioca; pé-de-moleque e queijo de coalho; e outras coisas mais.

Guardo ainda muito vivas na memória as viagens de trem que fiz com meus pais e irmãos, fugindo da seca que castigava o povo sofrido do sertão nordestino. Como não havia estação em Uiraúna, andávamos muitas léguas, os adultos a pé e, nós, as crianças, montadas nos lombos de burros alugados, até um lugarejo de nome “Poço Adão” onde, após longa e penosa espera na estação abarrotada de gente igual a nós, tomávamos o trem que nos levava, sem destino, para bem longe do torrão natal.

Outra viagem de trem que jamais esqueci foi a que fiz, quando estudante, ao voltar para passar as férias em casa. Descobri, naquela vez, que, embora o trem fosse o mais popular meio de transporte que havia, então, mostrava as diferenças e desigualdades que existem na sociedade, mesmo numa pequena cidade como Uiraúna; e também entendi que são elas que determinam as relações entre os que nascem e vivem num dado lugar.

Essa descoberta, no entanto, não foi fruto de reflexão, até porque eu ainda não tinha idade nem maturidade suficientes para tanto. Resultou, isso sim, de uma experiência vivida por uma adolescente que ainda não despertara para o lado cruel de uma sociedade que distingue e diferencia as pessoas pelo seu nível de renda e suas posses, definindo, assim, sua posição na hierarquia social. Contudo, só entendi isso mais tarde quando já era adulta.

Compreendi, então, que a separação entre ricos e pobres na sociedade já se expressava na classificação dos vagões do trem; em vários carros de primeira e segunda classe. Neles se distribuíam os passageiros separados de acordo com seu poder aquisitivo. Os que podiam pagar um bilhete mais caro viajavam nos carros de primeira classe; enquanto os outros, que só podiam comprar uma passagem barata, ficavam nos carros de segunda.

Ademais, os passageiros dos carros da primeira classe não se misturavam com os que viajavam nos de segunda. Os carros eram separados entre si por correntes de ferro que ligavam os vagões do comboio puxado por uma máquina a vapor, dirigida por um maquinista que, indiferente às pessoas que o trem transportava, cuidava, tão somente de levá-las com segurança ao destino final.

O exemplo do trem é ilustrativo do fato de que na nossa sociedade as pessoas são consideradas e tratadas como cidadãos e cidadãs de primeira e de segunda classe e que, nem mesmo os que vivem numa pequena cidade como Uiraúna, escapam dessa lógica perversa. Prova disso, é a experiência que tive quando adolescente e que passo a relatar.

Viajava de trem, na companhia de minha avó materna, de Patos, onde eu estudava, para São João do Rio do Peixe, para passar as férias em casa, quando vivi uma situação bastante constrangedora. Estávamos num carro de segunda, quando colegas meus que também viajavam no mesmo trem, só que na primeira classe, começaram a passear entre os carros, inclusive os de segunda, onde em um deles, eu e minha avó estávamos.

Não imaginam o vexame que passei ao ser flagrada, pelos colegas, viajando num carro de segunda. Eu não disse nada à minha avó, mas a vontade que eu tinha era de me esconder para não ser vista por eles, o que para mim seria humilhante e, mais que isso, poderia até levá-los a se afastarem de mim.

Pensando nisso hoje, parece exagerado e sem sentido, mas era o sentimento de uma adolescente que não descobrira ainda as implicações de sua origem de classe e as contradições existentes na sociedade.

Além da condição social dos passageiros que ocupavam os carros de primeira e de segunda classe, o que mais havia de diferente? Nos de primeira, os assentos eram poltronas individuais, certamente confortáveis; enquanto nas de segunda, eram bancos compridos de madeira, dispostos em três fileiras paralelas ao longo do vão no interior de cada carro.

Além de serem da mesma geração e de terem nascido na mesma cidadezinha, o que mais poderia haver de comum entre os jovens estudantes passageiros daquele trem? Talvez o sonho de viverem numa sociedade sem preconceito nem discriminação de qualquer natureza e onde todos (as) se reconhecessem iguais e com o direito de serem plenamente felizes.

*Texto originalmente escrito para a Revista Felc (Fundação Educacional Lica Claudino) Nº 4

segunda-feira, 28 de março de 2011

Feito ave de arribação

Sertanejo pobre é que nem ave de arribação. Vive fugindo da seca e da fome que fustigam, de forma impiedosa, as vítimas de freqüentes e prolongadas estiagens, verdadeiro flagelo na vida do povo nordestino.

Ás vezes eu me pergunto: -“será mesmo por falta de chuva que o sertanejo é forçado a arribar”? Pensando bem, acho que não.

Pelo que me lembro, quando vivia por lá, nem todas as famílias da Vila de Belém, hoje Uiraúna, eram obrigadas a migrar quando a chuva não vinha. Só os que trabalhavam na terra dos outros, e estes eram a maioria, tinham que partir, porque não conseguiam guardar o suficiente para se sustentar, enquanto esperavam o próximo inverno. E a espera era longa e angustiante.
Mal terminava o período das chuvas, e se fazia a colheita do que se plantava, voltava a pergunta: “será que vai ter inverno no ano que vem”? Essa preocupação atingia a todos, inclusive as crianças que, desde muito cedo, aprendiam a observar e a decifrar os sinais da natureza, que como diziam os adultos, indicavam chuva ou estiagem.

Cidade de Uiraúna-PB* 

Eu mesma, ainda bem pequena, me acostumei a olhar para o céu, ao amanhecer e ao anoitecer, à procura de alguma promessa de chuva. Alguns sinais, segundo a profecia, prometiam inverno; outros ameaçavam seca.

Observávamos, por exemplo, a cor da “barra do sol” no horizonte ao entardecer; a força e a direção do vento à “boquinha da noite”; o canto desse ou daquele pássaro, anunciando chuva ou sinalizando mau agouro. Assim, como as outras crianças pobres da Vila de Belém, cresci participando das angústias e esperanças das pessoas grandes.

A espera era longa. Durava meses. Ia até 19 de março, dia de São José, tempo em que a comunidade se mobilizava para realizar novenas e procissões e para rezar, pedindo ao Santo que mandasse chuva “para o sertão sofredor”. Aquela data era, portanto, o prazo limite que o sertanejo se dava para esperar pela chuva. Caso não chovesse até aquele dia, as famílias começavam a arrumar a trouxa para ir pelo mundo afora, sem eira nem beira, em busca de um lugar onde pudessem encontrar algum meio de sobrevivência. Sei disso por experiência própria.

Minha família migrou duas vezes por causa da seca. A primeira, na seca de 1932, quando eu ainda não havia nascido. A segunda, na seca de 1942, quando eu tinha oito anos de idade. Lembro-me, perfeitamente, como tudo aconteceu. Meus pais e três dos filhos mais velhos iam a pé. Eu e minhas duas irmãs mais novas fomos dentro de caçuás, montados sobre os burros que tinham sido alugados para transportar as crianças e alguns troços indispensáveis.

Alheias à aflição dos pais, e ignorando a gravidades da situação e os sofrimentos que nos esperavam, para nós, crianças, a véspera da viagem foi uma festa. Acompanhávamos, com animação, o movimento dos adultos nos preparativos para a viagem.

Ninguém dormiu naquela noite; nem mesmo os pequeninos. Lembro-me, emocionada, que era uma linda noite, cheia de estrelas que iluminavam a madrugada triste dos que se preparavam para partir.

Assim como a minha, muitas outras famílias foram arrancadas do seu povoado e do seu meio pela seca inclemente e pela estrutura de poder de uma sociedade injusta e desigual. Se houvesse justa distribuição de renda e da água acumulada nos açudes construídos pelo governo, com o dinheiro do povo, nas terras dos latifundiários, o camponês nordestino teria condições de esperar pela chuva e não ser forçado a migrar logo no começo da seca.

Frente de trabalho na época da seca*



A viagem teve início nas primeiras horas da madrugada. Sob um sol escaldante, percorremos seis léguas; de Belém até um lugarejo de nome Poço Adão, onde havia uma estação de trem. Ali nos juntamos a outras famílias que também rumavam sem destino, fugindo da seca como nós.

Após longas horas de espera, tomamos o trem que nos levou até um outro povoado onde pernoitamos. Ficamos alojados numa pensão miserável, sem condições mínimas de higiene, onde vivemos uma verdadeira noite de horror. No dia seguinte, embarcamos em outro trem e seguimos rumo ao desconhecido, à mercê da própria sorte.

Termina, assim, o primeiro episódio de uma trágica e longa estória que continua até hoje, protagonizada por levas e levas de sertanejos, vítimas da seca implacável e de uma estrutura fundiária injusta e perversa que condena milhares de nordestinos ao êxodo, que os arranca de suas origens, espalhando-os pelos quatro cantos deste imenso país. Partem em revoada ”feito ave de arribação”, mas chegará o dia em que, conscientes dos seus direitos e da própria força, construirão uma nação justa e solidária, onde todos tenham garantido o pleno exercício da cidadania.  

Fotos: Revista Felc