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sábado, 16 de junho de 2012

Ato de Declaração de apoio do PSB ao candidato do PT Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo


Encontro oficializa a paraibana Erundina como vice de Haddad à Prefeitura de SP
                                                                   Foto: Portal G1

Agradeço a confiança da direção do meu partido na pessoa do nosso presidente governador Eduardo Campos ao me delegar a desafiadora tarefa de integrar a chapa dos partidos do campo democrático popular às próximas eleições, na condição de candidata a vice-prefeita.

Quero agradecer também ao Partido dos Trabalhadores, nas pessoas do seu presidente nacional Rui Falcão e do querido presidente Lula, presidente de honra do P.T., por aceitarem a indicação do meu nome para compor a chapa com o seu, também nosso, candidato Fernando Haddad.

Recebo, sensibilizada e comovida, essa honrosa tarefa com humildade e profundo senso de responsabilidade por tratar-se da disputa do poder na cidade mais importante do país e que já tive o privilégio e a honra de governá-la como militante do Partido dos Trabalhadores.

Confesso que não foi uma decisão fácil e relutei muito em aceitá-la. Porém, em toda a minha trajetória política as tarefas que assumi nunca resultaram de aspiração ou vontade pessoal. Sempre foram decisões partidárias e de setores da sociedade que jamais me neguei a assumir por mais exigentes que fossem.
E também desta vez não seria diferente.

Por que relutei em aceitar?
Primeiro, pelo fato do enorme desafio que significa. Segundo, por ter que deixar o trabalho que venho realizando na Câmara dos Deputados, como representante dos paulistas, e que considero muito importante e do interesse do país.
Refiro-me à atuação do meu mandato em relação, sobretudo, a duas questões:

     1º a Reforma Política; represento a bancada do PSB e a bancada feminina da Câmara dos Deputados na Comissão Especial da Reforma Política que prepara uma proposta de reforma do nosso sistema político; sou também coordenadora da Frente Parlamentar pela Reforma Política com Participação Popular, com importante atuação na sociedade e junto à Comissão Especial da Reforma.

     2º o resgate da memória e da verdade histórica sobre os crimes de violações aos direitos humanos cometidos pelo regime civil-militar no Brasil, no período de 1964 a 1988; Presido a Comissão Parlamentar Memória, Verdade e justiça, no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, com o objetivo de acompanhar e contribuir com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade.

Contudo, conclui que não seria menos importante tentar colaborar com as eleições de São Paulo. Não só para eleger o melhor candidato que participa da disputa eleitoral, mas, sobretudo, para viabilizar um projeto político-administrativo para a cidade, no qual acreditamos, e que será conduzido pelas forças democráticas, sob a liderança e o comando de Fernando Haddad, que, além de jovem, já foi testado quando Ministro da Educação dos melhores governos que o país já teve, que foram os governos Lula e, agora, o governo Dilma Rousseff, primeira mulher presidente da República.

Sem dúvida, nosso candidato tem todas as credenciais para retomar, no governo da capital paulista, as experiências dos governos do P.T. na cidade, recriando-as para responder às exigências dos novos tempos numa metrópole, polo de uma enorme e complexa região metropolitana com acentuado processo de conurbação, o que exige que os problemas de uma cidade, como São Paulo, sejam compreendidos numa perspectiva metropolitana e com planejamento integrado de políticas públicas e ações dos governos locais, voltadas à solução dos múltiplos e complexos problemas da região.   
Ademais, um governo democrático popular, como, certamente, será o nosso, supõe uma gestão radicalmente democrática; com efetiva participação popular nas decisões estratégicas e no controle e fiscalização das ações do governo; em que a ética e a transparência terão um pressuposto e uma exigência que marcarão a ação dos agentes públicos no exercício do governo da cidade; e, ainda, a relação povo/governo terá um caráter pedagógico, de modo a contribuir com a organização política da população, respeitando a autonomia e a independência dos movimentos sociais.

Finalmente, desejo afirmar o quanto me sinto honrada de estar ao seu lado, Fernando Haddad, construindo junto com você e com todas e todos os militantes dos nossos partidos uma campanha criativa, incorporando a mais ampla participação pela sociedade e que já seja prenúncio do que será o nosso governo à frente da Prefeitura de São Paulo.

Há, exatamente, 24 anos, vivemos uma extraordinária experiência na campanha eleitoral de 1988, quando a garra da militância e o sonho de conquistarmos o poder político da maior cidade do país para colocá-lo a serviço, sobretudo, dos segmentos, excluídos da sociedade paulistana viabilizou a realização do primeiro governo democrático popular na cidade de São Paulo.

Com ânimo e a energia dessa militância generosa, temos certeza da vitória do nosso projeto político nas próximas eleições. Estou pronta e motivada para junto com Fernando Haddad, vencer mais esse desafio que Deus e a história colocam sobre nossos ombros.

Vamos à luta! Até a vitória se Deus quiser!   

terça-feira, 27 de março de 2012

Chegou a hora da verdade

*Publicado no site brasileconomico



Acaba de ser instituída, no âmbito da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, a Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça integrada por deputados de todos os partidos, com a finalidade de acompanhar, fiscalizar e contribuir com a Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada há quatro meses e que ainda aguarda a designação de seus membros pela presidente da República para iniciar seus trabalhos.

Essa Comissão Parlamentar promoverá debates sobre temas e episódios relacionados à repressão política; ouvirá, em audiências públicas, agentes do Estado que atuaram na repressão e as vítimas da ditadura militar; recolherá documentos e mobilizará o apoio da sociedade civil às investigações e busca da verdade histórica sonegada durante os 21 anos de ditadura e ainda não cobrada nestes 26 anos de democracia.

Contribuirá, assim, para que a CNV não frustre as expectativas do país e resgate a memória sobre um período da história brasileira que esconde, sob um véu de impunidade, uma verdade tenebrosa que precisa ser trazida à luz para que se faça justiça.

O Legislativo, como um dos poderes do estado, foi cúmplice dos crimes da ditadura militar, mas como instituição de representação política também foi vítima.

A Casa do Povo, por ordem dos generais que deram o golpe e usurparam as liberdades democráticas dos brasileiros por um longo e doloroso período, foi fechada mais de uma vez e calaram a voz de seus representantes, que defendiam a democracia e clamavam por liberdade e respeito aos direitos humanos.

Muitos foram cassados, outros tiveram que se exilar, e o deputado Rubem Paiva, símbolo de resistência e de fidelidade à democracia até hoje, como mais de uma centena de outros brasileiros, continua desaparecido.

Além disso, vários funcionários da Câmara e do Senado foram perseguidos, demitidos e presos por participarem da luta de resistência à ditadura.

No entanto, foi a mesma instituição Congresso Nacional que, por pressão das forças democráticas do país, aprovou em 1979 a Lei da Anistia por uma maioria de apenas cinco votos de diferença, numa conjuntura política bastante desfavorável, pois os militares, embora politicamente enfraquecidos, mantinham o controle do país pelas armas.

Isso se deu há 33 anos e para que se conclua a redemocratização do país é necessário conhecer a verdade sobre os crimes da ditadura e punir os criminosos.

A presidente Dilma Rousseff deve nomear logo os membros da CNV para que comece a trabalhar e a Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça da Câmara dos Deputados inicia suas atividades amanhã, 28 de março, com reunião do Fórum Nacional de Direitos Humanos que contará com a participação de representantes das Comissões de Direitos Humanos das Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais e dos Comitês Populares, quando será lançada uma Rede Legislativa Nacional que desencadeará um amplo movimento em todo o país pela Memória, Verdade e Justiça em apoio à Comissão Nacional da Verdade.

Luiza Erundina é Deputada federal PSB/SP

terça-feira, 13 de março de 2012

V CONGRESSO BRASILEIRO DE ASSISTENTES SOCIAIS


ALTERNATIVAS DE POLÍTICAS SOCIAIS NA ÁREA DE ESTRATÉGIAS DE SOBREVIVÊNCIA


Por Luiza Erundina de Sousa

1. Estratégia de Sobrevivência: - o que significa.

Este tema surgiu recentemente nas preocupações dos cientistas sociais e trabalhadores sociais latino-americanos. Foi, inclusive, o tema central do III Encontro de Trabalho Social na Unidade Latino Americana, realizado em Lima – Perú de 18 a 23 de novembro de 1984. A expressão “estratégias de sobrevivência” foi usada pela primeira vez em 1972 por Joaquim Duque e Ernesto Pastrana em referência a uma situação específica vivida pelas pessoas que invadiam terrenos urbanos no Chile e que se organizavam para garantir a própria subsistência. Portanto, para aqueles autores, o termo “estratégias de sobrevivência” significava o conjunto de práticas e organizações experimentadas por populares visando a manter certa qualidade de vida em condições que, por decisão própria, se haviam colocado e permaneciam à margem do consumo coletivo assegurado pelo Estado”.

Convém destacar o aspecto econômico, presente nesta concepção, visto que tais iniciativas dos setores populares contribuem para a reprodução da força de trabalho na medida em que buscam assegurar a reprodução material e biológica do grupo familiar.

As altas taxas de desemprego e subemprego e a crescente perda do valor real dos salários ameaçam constantemente a sobrevivência dos setores populares. Basta lembrar, entre outros, os elevados índices de desnutrição, de mortalidade infantil; as péssimas condições de moradia.

Diante desta situação, os trabalhadores, para garantir a sobrevivência da sua família, são levados a realizarem atividades à margem do mercado formal de trabalho, seja para complementação do salário, seja como fonte exclusiva de renda, tais como a produção de bens e serviços para venda no mercado ou para o consumo familiar. Citaria, como exemplos, as padarias e hortas comunitárias, a guarda de automóveis. Estas e muitas outras iniciativas destinadas à reprodução da força de trabalho se incluem entre as "estratégias de sobrevivência” que não são fenômenos recentes, pois sempre estiveram ligados às condições de vida do trabalhador nos países capitalistas subdesenvolvidos. O que tem de novo é que, com o agravamento da crise nesses países, cada vez mais amplos setores populares tiveram que recorrer a essas formas de sobrevivência, além do interesse que os pesquisadores vêm demonstrando pelo estudo do fenômeno.

2.  Estratégias de Sobrevivência e participação popular

As estratégias de sobrevivência surgem de iniciativas dos setores populares com vistas à satisfação de necessidades básicas da população, não atendidas pelo Estado, por inexistência ou insuficiência de políticas sociais.

Neste sentido, apresentam um grande potencial de participação popular. É necessário, porém, precisar de que a participação se está falando, pois frequentemente se rotula de “participação” o fato dos setores populares executarem projetos definidos por outros, resultando em manipulação política e mais exploração da força de trabalho. A real participação implica em ter acesso a todos os níveis de decisão, com autonomia e capacidade para, coletivamente, construir e implementar projetos alternativos de interesse de determinado grupo social.

Entretanto, como todo processo social, as estratégias de sobrevivência são contraditórias. Se por um lado estimulam a organização e a participação popular, por outro, poderão substituir a ação e a responsabilidade do Estado no que tange às políticas sociais. Além disso poderão reduzir as oportunidades de confronto entre os setores populares e o Estado, fruto das demandas reprimidas e que constituiu fator de mobilização e conscientização política dos trabalhadores .

Assim sendo, as estratégias de sobrevivência devem ser orientadas no sentido de se constituírem em processos que estimulem a discussão e reflexão, pela população, em torno dos direitos sociais e da sua condição de sujeitos de uma classe que deve lutar pelo respeito a esses direitos.

Portanto, ao mesmo tempo que os trabalhadores criam suas próprias alternativas de sobrevivência, devem a partir delas, desencadear processos de mobilização e organização com base em reivindicações concretas que tendem a se transformar em movimentos populares com grande potencial político.

São movimentos com base de classe, congregando segmentos heterogêneos dos setores populares (operários, ambulantes, empregados do comércio e de todos os ramos de serviços, funcionários públicos, etc.). Ademais têm espaço próprio, diverso, portanto, daquele ocupado pelos sindicatos e partidos políticos.

Há, em São Paulo, vários movimentos que demonstram como os trabalhadores são capazes de criar suas próprias alternativas de sobrevivência que, por sua vez, se transformam em estratégias de luta política.

Lembraríamos, entre outros, o movimento de habitação que, além de reivindicações mais imediatas, está pressionando o governo no sentido de que se defina uma política para regularização do uso dos terrenos públicos e particulares ocupados por favelas; o movimento dos desempregados que adota as mais variadas formas de luta para o atendimento de suas necessidades básicas, tais como: saques organizados em supermercados, acampamento nos parques públicos e invasão de órgãos públicos como formas de denúncia e de pressão sobre o Estado. Organizam-se em Comitês de desempregados por região e em plenárias dos Comitês a níveis municipal e estadual.

A experiência de luta dos trabalhadores nos diversos movimentos populares leva-os a tomarem consciência dos seus direitos sociais e contribui para a formulação de políticas alternativas voltadas para o atendimento destes direitos.

Essas políticas, por sua vez, tornam-se instrumentos de luta política face à inexistência de políticas sociais do Estado ou mesmo para se contrapor às existentes e que não atendem aos interesses da maioria.

É nesse processo de luta pela conquista dos seus direitos sociais que os trabalhadores vão ampliando seu espaço de participação política, de modo a interferir nas decisões a respeito das políticas sociais e na destinação dos recursos públicos.

Para tanto, precisam criar organizações populares fortes, independentes do Estado e dos Partidos Políticos, como os Conselhos Populares que constituem embriões de um autêntico poder popular.

3. As estratégias de Sobrevivência e o Serviço Social

O Serviço Social como toda prática social está submetido às determinações históricas. Isto é fácil de perceber ao examinarmos a evolução histórica da profissão que reflete as mudanças que ocorrem em cada sociedade onde essa prática se dá.

No momento atual, não só no Brasil como em toda a América Latina o Serviço Social tem que ser repensado a partir da dinâmica dos movimentos populares, incorporando-se à luta dos setores populares pelos seus direitos sociais.

Temos que definir uma nova linha de atuação profissional que se caracteriza, antes de tudo, pelo respeito às iniciativas dos setores populares na busca da satisfação de suas necessidades básicas.

Essa mudança de linha de atuação implica em reorientar a ação profissional nas instituições, no sentido de criar espaços profissionais que permitam apoiar e articular a organização popular e suas estratégias de sobrevivência.

Neste sentido, o Assistente Social terá que articular-se com outros profissionais, dentro e fora da instituição, da própria categoria e das outras, utilizando-se, para tanto, do sindicato como instrumento de luta social e política.

Nesta perspectiva, o profissional procurará colocar os recursos institucionais a serviço dos setores populares, ao invés de lhes impor os projetos da instituição. Seus conhecimentos técnicos devem estar à disposição das iniciativas populares, sobretudo no que se refere aos critérios de organização, planejamento e administração, contribuindo, assim, para maior eficácia dos esforços e consecução dos objetivos.

Vimos, además, que as “estratégias de sobrevivência” podem e devem se constituir em canais de participação e de construção coletiva de projetos alternativos de interesse dos setores populares. Para tanto, há necessidade de que as várias iniciativas se articulem e se unifiquem em torno de objetivos comuns que se comporão a partir de uma perspectiva de totalidade. Cabe ao Assistente Social contribuir neste processo de articulação e organização de forma a que cada parte ou estratégia específica se articule com o todo que deverá resultar num projeto popular alternativo para se contrapor ao projeto das classes dominantes que se expressa através da Política Social do Estado.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Revista Poder Joyce Pascowitch – Entrevista Ficha Limpa



 *Publicado na Revista - Poder Joyce Pascowitch | Abril de 2010

Enquanto resta pouca crença nos políticos brasileiros, Luiza Erundina arrecada dinheiro e solidariedade de partidos de todos os espectros e eleitores de várias origens. Aos 75 anos, sem medo de dizer o que pensa, ela carrega suas armas para sua última campanha.

O escritório de Luiza Erundina em São Paulo fica num pequeno sobrado no bairro da Saúde, centro-sul da cidade. Tanto o entorno quanto o interior da casa denotam que a deputada federal e ex-prefeita da maior cidade do país leva um estilo de vida bastante modesto. A decoração mais se assemelha a uma assemblage de móveis catados aqui e ali, as paredes forradas de quadros de pintores desconhecidos e fotos da trajetória de uma figura política cuja proximidade sempre foi maior com o populacho do que com os poderosos. Em seu vocabulário, as palavras “luta” e “trabalhadores” costumam aparecer com freqüência insistente. Aos 75 anos, após mais de três décadas de vida pública, Erundina dispõe de um patrimônio que não chega a R$ 200 mil.

O valor de seus bens tornou-se objeto de interesse do noticiário nacional no fim do ano passado, quando foi condenada a pagar R$ 360 mil pela publicação de um anúncio sobre o apoio da prefeitura paulistana à greve geral de março de 1989. Recém-empossada como a primeira prefeita mulher, nordestina e de um partido de esquerda, ela e sua equipe julgaram que a conjuntura da época – inflação galopante, arrocho salarial, instabilidade política – exigia um posicionamento favorável à classe que os elegera.


Vinte anos mais tarde, enquanto o Brasil assistia estarrecido ao chamado mensalão do DEM, mais um episódio que tornava a política um antro de desonestidade aos olhos dos eleitores, vaquinhas entre pessoas das mais variadas origens rendiam a Erundina bolos de notas de R$ 2 a R$ 20, que ela juntou a somas mais vultosas recolhidas em eventos organizados por políticos de todos os espectros – inclusive ex-desafetos. Em pouco tempo, a conta bancária aberta para ajudar a deputada já ultrapassava o valor necessário. A dívida foi paga no início de janeiro e o que sobrou (R$ 7 mil) foi doado a instituições de caridade.

Prestes a iniciar a campanha do que imagina ser seu último mandato na Câmara, Erundina segue encabeçando a mesma “luta de trabalhadores” que a levou à militância petista na década de 80. As censuras ao sistema político e econômico tampouco arrefeceram. Desprovida de qualquer temor de contrariar quem quer que seja em detrimento do que ser acredita, não moderou as críticas inclusive ao próprio partido, o PSB, e a seus companheiros de sigla na longa conversa que teve com PODER. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

DECÊNCIA NO CONGRESSO
Essa generalização de que todo político é corrupto, carreirista e oportunista é injusta. Eu não sou a única, tem muita gente decente. Não diria que é a maioria, mas é um percentual importante, de diferentes partidos. Quando alguém diz que meu governo foi honesto, isso pra mim não é um elogio. Ser ético é um pressuposto, não uma virtude.


CANSAÇO   
Cada um tem o seu limite. Claro que há momentos em que a gente desanima, muito mais pela dificuldade de ter uma ação efetiva, de resultados. A relação com os partidos também é muito desgastante. Esse sistema político está absolutamente exaurido. A falta de identidade ideológica, o fato de todos os partidos serem iguais, isso me incomoda e faz perguntar: ”O que estou fazendo aqui?”. Para mim, o partido não deve ser apenas uma legenda para disputar eleições. Tem de ser um espaço de discussão, de formação, organização da sociedade, dos setores que esse partido imagina representar. E, infelizmente, todos se nivelaram, todos existem para dar a legenda sem nenhum critério.

FILIAÇÃO PARTIDÁRIA   

Fico impressionada com as campanhas de filiação dos partidos feitas indistintamente pela televisão e pelo rádio. No passado, era preciso a indicação de um militante, que assumia a responsabilidade. Sempre que alguém me procura querendo entrar no meu partido, eu ofereço o estatuto para que a pessoa veja se está de acordo. É o mínimo. Talvez eu seja muito sonhadora e isso esteja fora de moda. Mas não sei fazer de outro jeito.

ESTRANHO NO NINHO 1
Meu próprio partido, o PSB, não é diferente. O Paulo Skaf, por exemplo, não sei se ele viria para o partido se não fosse para ser candidato a governador. Provavelmente não. Não é esquisito filiar-se a um partido, antes de ajudar a construí-lo e fortalecê-lo, e sair como candidato a governador? Não tenho nada contra o Paulo Skaf, que tem contribuído à frente de uma instituição importante. Só acho que ele está no lugar errado. Ele se filiou a um partido que, pensando nos interesses da classe dele, tem antagonismos. Como as 40 horas semanais, mudanças na previdência social e outros direitos trabalhistas que defendemos. Isso me incomoda, não vou me sentir confortável. Mas não vou contrariar o partido. Vou me manifestar oportunamente quando o partido se reunir, o que até agora não ocorreu.



RUSGAS COM O PT
A relação com o PT sempre foi complicada. Os dirigentes – Lula, Zé Dirceu -, não assimilaram minha vitória nas prévias para a prefeitura de São Paulo e ficaram reticentes durante a campanha. Tanto é que Lula não foi à minha posse, foi à do Olívio Dutra em Porto Alegre. Durante o governo, a direção partidária fazia avaliações sobre a nossa atuação e divulgava antes que eu soubesse. Quando aceitei o cargo de secretária da administração federal do governo Itamar Franco (porque julguei que naquele momento de fragilidade minha experiência seria útil para o país), fui suspensa. Meu julgamento foi transmitido pela imprensa, foi um verdadeiro massacre. Perdi o controle, chorei. Depois, o próprio Lula e o PT reconheceram que não agiram corretamente.


ESTRANHO NO NINHO 2  
Tive de sair do governo Itamar porque não transigi com certar práticas. O grupo ligado a Minas, o [Henrique] Hargreaves (ex-ministro da Casa Civil), aquele povo todo, preservaram as regalias do governo Collor. As mansões do governo continuavam nas mesmas mãos, as comissões que faziam as privatizações ganhavam diárias abusivamente. Eu me insurgi contra aquilo. A gota d´água foi uma repressão da polícia aos trabalhadores públicos que solicitavam um reajuste salarial. Eu não lutei contra a ditadura e não fui para o governo para aceitar a repressão a cidadãos paralisados para exigir melhorias. Quando eu estava com os manifestantes, o presidente Itamar me ligou e me demitiu, por telefone. Por conta da minha coerência. A minha vida toda foi orientada politicamente em torno de determinados compromissos, e eu nunca os transigi. Pago um preço por isso, paciência. Vou pagar sempre.

FICO
Depois de minha saída do governo Itamar, o PT ma reintegrou. Mais tarde, quando perdi as eleições para a prefeitura de São Paulo para Celso Pitta, em 1996, aprovou-se uma moção de repúdio contra mim, dizendo que meus erros resultaram na derrota. Nesse momento, não me julgava no direito de largar a política, era uma das poucas mulheres que tinha conquistado esse espaço. Saí do PT e fui para o PSB. Considero que foi uma mudança de casa na mesma rua.


O PT DE ONTEM E O DE HOJE
Acho que o PT optou pela via constitucional. No comecinho do PT, quando fui candidata a vereadora na primeira eleição que o partido participou, a discussão era sobre a conveniência ou não de disputar as eleições para administrar o capitalismo, o estado burguês, negando a luta institucional. Os militantes não deveriam ter mandatos seguidos e tinham de destinar 30% dos honorários ao partido. Isso nos educava para nos mantermos nos padrões de simplicidade, como deve ser um partido de trabalhadores. Com o tempo, isso ser reverteu. O partido se distanciou da militância de base, da luta social. E passou a focar suas energias no espaço institucional. Ganhou-se mandatos, governos, a Presidência, e isso passou a ser o principal numa correlação de forças que não asseguraria que o governo poderia se viabilizar com minoria no Congresso. A condição foi fazer concessões constituindo uma base heterogênea demais, comprometendo a identidade partidária.

A FALÊNCIA DO SISTEMA  
Só tem idéia de como esse sistema está exaurido quem vive lá. É um horror. O Judiciário legisla no lugar do Executivo, que por sua vez, legisla por meio de medidas provisórias, o poder econômico determina as eleições. É um sistema muito imperfeito e defasado. Fala-se em reforma política, mas é preciso que se faça uma reforma estrutural, repensar os marcos do Estado, a relação entre as três esferas... O problema é quem vai fazê-la, pois qualquer reforma está condicionada a interesses personalistas e eleitorais. Aquele que se eleger deveria assumir o compromisso para encaminhar a reforma no início da legislatura.

CIRO GOMES CANDIDATO

Ele continua reafirmando que é candidato, mas o partido não se reuniu para se decidir quanto a essa questão. O que eu sinto é que a candidatura dele não se construiu, nem para governador, nem para presidente. Não se constrói uma candidatura de última hora.


MULHERES NA PRESIDÊNCIA
Ter duas mulheres com o perfil e a história de Dilma Rousseff e de Marina Silva, com chances de se tornarem presidente, já é um avanço. Nas últimas décadas, as mulheres candidatas eram quase figurantes. Será difícil que elas não assumam a plataforma dos direitos das mulheres para diminuir o fosso do equilíbrio entre nós e os homens. Nesse quesito, perdemos para todos os países, menos Haiti e Colômbia. A Argentina tem 40% de mulheres no Parlamento. Nós temos menos de 9% na Câmara e 12% no Senado. É um país de fato machista, patriarcal, excludente. Uma sociedade em que a maioria dos eleitores tem esse nível de sub-representação não se pode dizer democrata.

CONTROLE DA MÍDIA   
As concessões de rádio e televisão são feitas de forma nada criteriosa. O Brasil está num atraso absoluto em relação a isso, e numa época em que a internet, os sistemas digitais e a convergência tecnológica potencializam muitas vezes o poder da mídia. E com o agravante de 25% dos senadores e 16% dos deputados terem outorgas ilegais. No ano passado se renovou pela terceira vez as concessões por 15 anos, sem nenhum controle sequer do que está previsto na Constituição. Tentei aprovar uma audiência pública antes da renovação, mas fiquei sozinha, estrebuchando. Agora, pela primeira vez, fez-se uma conferência nacional. Foi uma conquista: 672 resoluções foram aprovadas. É verdade que até a implementação dessas medidas existe uma distância, mas o fato de a conferência ter ocorrido é um marco, e a partir daí as coisas vão ter de mudar.

ENRIQUECER NA POLÍTICA?

O salário de deputado não é baixo. Dá para viver com dignidade sem transigir, mas não para aumentar o patrimônio. Se alguém enriquece, é porque transigiu. E os meios para isso são inúmeros. A menos que você seja rico, como é que gasta milhões numa campanha eleitoral? Mas gastam tanto e ainda enriquecem? A conta não fecha. Esse item da política precisa ser resolvido de uma vez por todas.